terça-feira, 31 de janeiro de 2012

NOTA SOBRE ARISTÓTELES



Há qualquer coisa de excessivo e mesmo de violento em Platão; é uma filosofia de descontente, compreenda-se descontente consigo.  Era preciso pensar a pura ideia, e não se pode; saber que não se pode e saber que é preciso, tal é a instável posição, donde se corre o risco de voltar a descer; e voltar a descer não é renunciar às recompensas e à glória. Bem pelo contrário. Assim, mesmo nas ciências, nós somos tentados e ameaçados. A vida moral exige ainda mais; porque, o que quer que façamos, o leão será sempre leão e a hidra sempre hidra. As nossas vidas futuras serão ainda vidas humanas; o sábio fugirá do poder, quer dizer da tentação de fazer bem aos outros; a menor falta aqui seria sem remédio. Deus não nos ajuda, porque ele fechou o mundo em todas as partes, e compete ao homem arranjar-se com este mecanismo sem defeito. A natureza não nos ajuda; ela acaba indiferentemente os nossos vícios e as nossas virtudes; cegamente nos condena ou nos recompensa segundo a nossa escolha. Não há qualquer graça em Platão, se não for o encontro de um sábio; há também a felicidade de não ter êxito, mas é preciso não contar muito com isso. No total a virtude é difícil e ameaçada. O verdadeiro partido é monástico, sem paraíso e sem Deus. Esta severa doutrina não mente nem promete nada. Reina aí, no entanto, uma luz de felicidade, mas que é preciso alimentar de si. Fatigamo-nos de ser Platónicos, e é o que significa Aristóteles.

A filosofia de Aristóteles é uma filosofia da natureza. O trabalho impossível de separar a ideia é um trabalho contra a natureza. A ideia não existe. O que existe é o indivíduo. Uma proposição verdadeira significa que um atributo está ligado a um ser determinado; não ligado pelo nosso juízo, mas antes pelo seu próprio juízo, que é o seu desenvolvimento. Ou, noutros termos, o possível segundo a relação, ou segundo a ideia não é nada de nada; é possível o que é possível para um ser existente, como Sócrates ou Callias; é possível o que alguém pode. A mudança real, de qualquer natureza que seja, é uma passagem da potência ao acto, passagem cujo movimento é só a aparência exterior. Assim tudo está vivo em algum grau. Deus é a vida perfeita, ou acto puro; há em todo o vivo qualquer coisa de divino. Esta doutrina é conquistada por um movimento sempre retomado, e quase que em cada frase. Porque o primeiro momento é de notar a insuficiência duma filosofia da matéria, duma filosofia da forma, e duma filosofia do movimento. O segundo momento é de organizar o mecanismo segundo esses três princípios e sob um primeiro motor, de velocidade infinita, e imóvel nesse sentido. Mas estas relações exteriores não podem trazer o ser; é preciso pensar potência e acto, e vida divina. E tal é a filosofia teórica, que, como se vê, nos reconcilia com a nossa natureza. Das suas próprias forças que cada um faça ciência, e a última palavra da teologia é que o pode fazer, sem recusar os seus próprios órgãos, nem o prazer de ver. Encontrar-se-á em Hegel um amplo desenvolvimento desta filosofia da inerência, tão bem oposta à filosofia da relação que é a de Platão. Uma diferença é porém de notar. Aristóteles não foi até ao ponto de pensar Deus como devir. O acto puro é imutável finalmente; por isso a natureza não tem história, mas antes é um eterno retorno das mesmas frases: como antes da criança existiu o homem feito, do mesmo modo antes do começo da civilização houve uma civilização mais perfeita; nós recomeçamos sempre; e é por aí que Aristóteles permanece Platónico; ao passo que segundo Hegel, tudo continua, tudo é novo e será novo.

O Aristóteles moralista é tal como esta metafísica panteísta o faz prever. O bem absoluto não é nada para ninguém; o bem de cada ser é impossível de arrancar dele; a justiça é impossível de arrancar das condições da vida, entre as quais é preciso contar a família, o comércio, a política. Aristóteles é o pai dos sociólogos. Há uma justiça do rei, uma justiça da mãe, uma justiça da criança. E, ainda mais próxima, há uma justiça de cada um, uma temperança de cada um, enfim uma perfeição de cada um, que depende das suas forças próprias, e resulta do seu desenvolvimento. De que o prazer e a felicidade são sinais; porque o verdadeiro geómetra é aquele a quem a geometria agrada, e o verdadeiro temperante é o que se compraz na temperança. Não é portanto verdade que a nossa natureza seja nossa inimiga, a nossa natureza, ou essa natureza política da qual também nascemos, ou a grande natureza, tão profundamente em harmonia connosco. É por isso que não é razoável separar-se dos juízos comuns e da prática comum, nem dos modelos vivos, nem do exemplo, nem do conselho. O aluno de Platão devia chegar aí; e é a força mesma do Platonismo, é o puro deserto platónico, que o devia proporcionar aos homens. Mas contemos então como um remorso a contínua polémica. É assim que nós vemos que do moderno Platonismo, que é o Kantismo, cada um se quer evadir, e dizer a si mesmo que é preciso, no entanto, pensar e agir segundo o mundo. Mas o mais resoluto dos físicos não pode impedir-se de voltar algumas vezes à pura geometria, ou pelo menos a sentir a sua falta, como o mais resoluto dos políticos volta à primeira justiça, ou lamenta a sua falta. São dois momentos ou pulsações do pensamento, ampliados nestes dois sistemas de Platão e de Aristóteles. O segundo tem mais complacência. Reencontraremos um e outro nas querelas do socialismo como na filantropia dos banqueiros. Não é por acaso que a Igreja foi Platónica em primeiro lugar e Aristotélica em seguida; e isso esclarece suficientemente bem as querelas de jansenistas  e de jesuítas, que são as formas passageiras duma querela eterna. Porque é preciso viver; e todavia, foi o que Platão nunca disse. Sócrates, depois do julgamento, dirige esta palavra aos seus juízes: “Eis que partimos cada um para o seu lado, eu para morrer, e vós para viver. Quem tomou o melhor partido, só Deus o sabe.”






Alain
(Tradução de José Ames)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ER

XI


“O vício não poderia conhecer a virtude nem conhecer-se a si mesmo.”
             (A República)


Depois de todos estes desvios  e desta longa exploração dos campos Elísios, que estão aqui em baixo, e dessas sombras lamentosas que são estes homens e nós, eis que a sabedoria esclarece um pouco essas existências errantes e tacteantes; eis que suspeitamos um pouco de que é que elas se queixam, a quem elas acusam, e o género de salvação que esperam. Os pequenos leões  perguntavam: “Não pode o injusto ser feliz?” Mas quem responderá? Se percorro o Estado tirânico, encontrarei sinais de felicidade, e mesmo arrogantemente erguidos, porque os impudentes desejos são senhores das ruas. É verdade também que os sábios estão na prisão; mas eu não os vejo. Não é o mesmo para a alma injusta? Porque também ela meteu a sabedoria no calabouço, e mesmo esqueceu-a aí. Uma  tal alma jamais conheceu, nem sequer suspeitou,  a felicidade do sábio. Por isso, esta espécie de furor que a toma, pode ser que  lhe chame felicidade e até que negue de boa fé que haja uma outra felicidade. Mas é dizer demasiado sem dúvida. Não mais na alma tirânica do que no Estado tirânico há permissão de pensar. O homem desejo e o homem cólera são homens sem cabeça. Eles não pensam nada; com certeza não pensam que pensam. Num sentido, têm consciência de ser o que são; mas consciência turva, meio adormecida, esquecida, e como que cortada em postas. Será que a cólera se julga a ela mesma e sabe que é cólera? O desejo, que corre e se lança, sabe ele que corre e se lança? Um homem rico, e que vive como rico, julga-se ele? Todas estas vidas são arrebatadas e mecânicas. Elas vivem dos sinais que lhes lançam. Como Orion na necromancia da Odisseia, sombra de caçador perseguindo sombras de animais.

Há no entanto injustos que se lamentam, e que se dizem infelizes. Felizes, dizia Sócrates, se o choque da desgraça os advertisse. Feliz aquele que é punido. Mas é aqui que é preciso observar as sombras, e rever em pensamento todos os graus do saber. A opinião nunca julga pela ideia. O ambicioso desiludido  que falhou, entendei, que tentará ainda a mesma mentira, as mesmas intrigas; a desgraça confirma-o. O malevolente na mesma; ele procura uma nova astúcia, qualquer outra manobra; espera uma ocasião melhor, e despreza um pouco mais. Um avarento roubado queixa-se de ter sido roubado, não se queixa de ser avaro. O tirano por sua vez aprisionado só pensa em tirania e prisão. O tirano expulso levanta um  outro exército. E o vaidoso humilhado sonha com a vaidade triunfante. O que eles esperam vale à justa o que perderam. Deixai-os descer.

Na verdade, só o sábio, comparando as três vidas,  de desejo, de poder, e de saber, pode julgar sãmente; porque ele conhece as três. A cabeça nunca devora o resto. Ele não ignora o prazer do ventre; cada dia a ele cede; mas retira-se e julga. Não ignora o prazer do coração; a cada minuto se prende aí e se desprende. Ele nomeia-os a um e a outro, ordena-lhes, salva-os; a sua justiça própria consiste nisso. É ele pois que é juiz. Os desejos e as cóleras, algumas vezes, cansados de rivalizar, esperam alguma ordem melhor em que o justo seja rei. É assim que a alma batida pela desgraça se representa uma outra vida, algum Minos, Éaco, ou Radamanto que o ensinará, explicando-lhe o seu infortúnio pela ideia, e acrescentando ainda um pouco de sofrimento para a desviar de provar sempre do mesmo prato. Haveria pois alguma esperança para todos?

Não há esperança. O sábio deixa-nos connosco. Deus deixa-nos connosco. Nem um nem o outro nos fazem a graça de nos punir. Deus, como significa o Timeu, é apenas ordem e sabedoria nesses movimentos profundamente justos, inumanamente justos, que acabam as nossas acções. “Justa e perfeita é a roda”, como diz o outro. Os efeitos respondem às causas, e cada um tem justamente aquilo que queria, embora muitas vezes não o reconheça de todo. O violento tem violência, e lamenta-se. Mas o que esperava ele? É preciso enfim julgar essas loucas esperanças e esses medos loucos, que adiam a justiça. Por muito tempo que  possamos viver, será como agora.

O movimento natural da imaginação poética é fingir tempos melhores, seja atrás de nós,  os quais, por nossa falta, não soubemos usufruir, seja à nossa frente, e onde discernimos uma espécie de recompensa. Uma certa oscilação é sempre a lei da imaginação, pois que em todos os seus movimentos a vida imita as voltas e as compensações celestes. Na  provação pensa-se na felicidade; pelo contrário, a felicidade teme e inventa catástrofes. De qualquer modo, é uma outra vida que assim se pensa, outras situações, outras oportunidades. Não se ousa confessar, que se quereriam os prazeres do vício em recompensa da virtude, nem o poder de desprezar como consolação  das dores do humilhado; mas esta confusa ideia mostra-se sempre muito e demasiado nas nossas preces. Porque é a inclinação comum relacionar a felicidade e a infelicidade com os encontros, as asperezas de homens e de coisas, a enfermidade do corpo. Neste jogo da outra vida, seja quando se a lamenta, seja quando se a espera, a intenção é sempre cumprida e purificada de sobressaltos, por uma atenção das coisas; e é o que se chama uma melhor sorte. E este mesmo poder, esta providência fora de nós, da mesma maneira que completa as almas benevolentes e fracas, corrige também os maus por uma escolha de circunstâncias, distribui aos despreocupados os tesouros do avaro, e eleva ao poder aquele que temeu, enquanto que o tirano é por sua vez escravo ou prisioneiro. São outros tempos, são outras leis; são graus de purificação pela experiência; são lições pela opinião e pela percepção; mundos mais bem feitos, ó Timeu! Todavia a imaginação popular pressente que a alma resistirá aos efeitos, e não será mudada tão depressa. Porque se vê que a perda não cura o jogador, nem a decepção o ambicioso. Donde essas durações imensas, esse crédito de mil anos e de mais mil anos que se acorda a esse progresso providencial, de que a política é como que a imagem. Estas visões de terra prometida flutuam entre  céu e terra, como se a poesia tivesse a seu cargo  ornamentar as nossas vidas medíocres, adiando e prometendo, prometendo sempre que a opinião valerá ciência. Decerto Platão desenrolou esta poesia, como em sacrifício a essa vida inferior que nós não podemos cortar de nós, e que é bem preciso divertir. Notemos que ele a desenrolou toda e até chegou a desencorajar os imitadores, talvez para usar em nós e esgotar  esse prazer fácil de multiplicar os tempos.  Mas é preciso não esquecer também que Platão não queria amar os poetas. É duro ver que Homero é expulso duas vezes de A República; com honra, com pena, mas expulso. Querer-se-ia sempre, e é o lote do homem, ganhar ao severo entendimento, e acomodar-se com as provas de opinião, mais clementes. Mas eis aqui uma grande e terrível prosa. Na conclusão de A República, tudo é esclarecido, e todos os tempos são reunidos num momento eterno.

Er, é o homem que foi ver. Tomado por morto, conduzido a Plutão, reconhecido vivo e reconduzido, ele conta o que viu lá em baixo. O que é que ele viu? Primeiro, o espectáculo da necessidade, e os verdadeiros fusos das Parcas, que são as sete órbitas dos corpos celestes segundo a lei. Mas sobretudo um juízo estranho, e que começa por uma grande voz que diz: “Deus está inocente.” Depois disso, diante das almas que vão voltar à vida, são lançadas sortes no prado, que são como embrulhos; aqui uma tirania, com tudo o que a acompanha, suspeitas, morte violenta, e o resto; ali, uma vida de agricultor, útil, ignorada, ocupada; e assim todas as espécies de destinos. As almas são convidadas a escolher segundo uma ordem ao acaso. Mas não receeis; se se encontrar uma alma sábia entre as últimas, encontrará ainda um bom destino; porque quase todas escolhem mal. E como seria de outra maneira, pois que as mais das vezes elas não têm experiência duma vida humana? Como dirá Aristóteles, é ao atleta que agradam as lutas, é ao geómetra que agradam as provas, e é ao homem de bem que agrada a virtude. Todavia, pois que elas estão privadas, na maior parte, do conhecimento pela ideia, falta-lhes ainda outra coisa; elas não têm qualquer explicação para a sua desgraça pelas verdadeiras causas. Elas crêem que um tirano é muito imprudente se não faz amigos; não sabem que um tirano não tem amigos. Se o glorioso é humilhado, se o pretensioso é tolo, se o ciumento é enganado, elas não vêem como é que os efeitos resultam das causas nesses destinos; mas antes crêem que tiveram pouca sorte, ou que pecaram por ligeireza e falta de atenção. E os que têm um carácter difícil, e são repelidos em todo o lado, tomam de facto a resolução de  melhor escolher os seus amigos, nessa nova vida em que vão entrar. Por isso como estão agitadas, essas almas, pela ideia de escolher, de recomeçar tudo de novo, de tudo mudar, mas sem se mudarem! Adivinhais que, por falta de luzes da sabedoria, todos esses caracteres reunidos ali escolhem ser de novo como eram; assim o bêbedo escolhe beber, e o jogador, jogar, e o ambicioso, reinar, e o insolente, desprezar, pensando todos evitar as consequências do que  são como se evita um limite ou um fosso. Eu abrevio com pena. Era preciso transcrever, porque este conto é sem dúvida o mais belo conto. Er viu, entre outras coisas, que a alma de Ulisses, que tanto vira e reflectira, não escolhia  muito mal. Mas bem ou mal escolhido, é escolhido sem remissão. Cada um trazendo o destino da sua escolha ao ombro, conduzem-nos então ao rio Esquecimento, onde todos bebem. E ei-los de novo sobre a terra, exercendo a sua vã prudência, e acusando os deuses. Trabalhemos, diz Sócrates depois deste conto, trabalhemos em pensar direito, a fim de fazer uma boa escolha. Com este conselho se fecha A República.

Platão agora fechado, cabe-nos, penso eu, apreender pelo melhor o sentido deste conto. Porque nós percebemos, na nossa sinuosa viagem, mais de um clarão que nos mostrou o homem e a condição humana. Começamos a saber um pouco que Platão não mentiu. Suspeitamos que esta mistura de razão e de imaginação, que este sorriso e estes contos de mulher do povo, são justamente o que convém à nossa natureza encadeada. Pela virtude deste conto, os nossos pensamentos estão de pé, entendo aqueles que dormiam. Talvez se tenha compreendido, depois de tudo o que precede, que não é a nossa razão que tem tanta necessidade de razão. Aproveitemos pois a ocasião para fazer duas ou três observações, muito perto de terra, e que nos farão entender que este conto é bom para todos.

Primeiramente, eu noto que as nossas escolhas estão sempre feitas. Deliberamos depois de ter escolhido, porque escolhemos antes de saber. Seja uma profissão; como é que se  escolhe? Antes de a conhecer. Onde, vejo uma negligência alerta, e uma espécie de embriaguês em se enganar, como algumas vezes nos casamentos. Mas vejo também nisso uma condição natural, pois que só se conhece bem um ofício depois de o ter feito por muito tempo. Em resumo, a nossa vontade empenha-se sempre, por muito razoável que seja, em salvar o que pode duma escolha que em nada foi razoável. Assim as nossas escolhas estão sempre atrás de nós. Como o piloto, que se arranja com o vento e a vaga, depois de ter escolhido partir. Mas digamos também que quase nenhum de nós  abre o embrulho quando o podia fazer. E é verdade que cada um à nossa volta acusa o destino duma escolhe que ele mesmo fez. A quem não poderíamos dizer: “ Foste tu que o quiseste”, ou então, conforme o espírito de Platão: “Estava no teu embrulho”?

Ninguém nos vai crer. Essa escolha está esquecida. O rio Esquecimento não cessa de passar, e ninguém cessa de beber dele. Uma pretensão espantosa do homem é de ter uma boa memória, e de contar exactamente como, palavra puxa palavra, tudo aconteceu. Ninguém pode remontar ao começo; ninguém pode arrepiar caminho. Aquilo a que chamamos recordações, são os nossos pensamentos de agora, as nossas censuras de agora, a nossa defesa de agora. O que faz com que não tenhamos nunca uma recordação pura, é que nós sabemos  o que veio a seguir. Assim, só temos de nos haver com o agora, e ele passa. A nossa vida passada é-nos tão desconhecida como essas vidas anteriores o são às almas depois de terem bebido do rio Esquecimento.  E é verdade que vivemos milhares de vidas, e fizemos milhares de escolhas, das quais a custo sentimos atrás de nós a presença  e em conjunto a ausência, e o inexplicável peso. Nada de nós é passado. O já feito pressiona-nos e corre diante de nós. Por muito estranha que seja esta condição, é bem a nossa. “Já não é tempo”, é a palavra dos dramas; e se pudéssemos remontar de instante em instante, a cada instante essa mesma palavra se teria de dizer: “Já não é tempo.” Em vão, pois, tentaremos remontar. Se há um remédio, e nós vivemos por sabermos que existe um, esse remédio está em  saber  estas coisas mesmas, mas segundo a essência, que não é passado, que não passa. Por exemplo, essa longa conversa de A República, se a tiverdes de novo convosco, em vós mesmos, Sócrates eterno em vós, e Platão, eterno em vós, ambos dominando dos seus círculos irrepreensíveis, como o deus do Timeu, se, digo eu, conduzirdes essa conversa, em vez de quererdes recuperar o que acaba de passar, é a melhor preparação para essa escolha, depois para essa outra, pelas quais, daí a pouco, ficareis comprometidos. Tudo é irreparável, neste sentido de que é vão querer que as nossas escolhas passadas tenham sido outras; mas, enquanto recriminais, outras escolhas de instante em instante vos são propostas, pelas quais tudo pode ainda ser salvo. Porque nós não paramos de continuar, e a maneira de continuar faz mais do que a escolha. O agricultor não escolhe ser agricultor, mas escolhe desbravar aqui, drenar acolá. Caminho feito, escolhe colocar pedras ou  rodar esmagando a lama. E aquele que é casado também não escolhe  estar casado, mas escolhe ser paciente, indulgente, justo, ou o contrário. Num sentido, ninguém começa; mas, noutro sentido, todos recomeçam. Assim esta cena que conta Er, o ressuscitado, é de todos os nossos momentos. É sempre bom fazer uma boa escolha, e o pior nunca é o único que pegar. Mas notei que aqueles que não pensam segundo a essência, entendei o saco, esta sociedade do sábio, do leão e da hidra, e que não desenharam antecipadamente em ideia a forma pelo menos do que pode resultar disso, notei que esses são sempre apanhados, a despeito duma longa experiência. Como aquele que não está encolerizado, crê de boa fé que nunca será dominado pela cólera; e aquele que comeu bem não crê que terá fome. O que se vê que acontece aos outros e a si não adverte nada, mas choca somente. Assim, em vez do eterno avanço daquele que sabe, o eterno atraso do que se lamenta.

Reparando bem, depende de nós juntar essas aparências do tempo num pensamento fora do tempo, o que é pensar. Cada momento é todo nosso, e cada momento basta; é bem preciso, sem o que, como diz Heraclito, nós vivemos a morte dos deuses, sombras caçadoras de sombras.

Tudo é Elísio e já morto nesta vida, se vivermos segundo a opinião. Mas há outra coisa, e o espírito mais positivo não o pode negar; porque, se tudo passasse, quem saberia que tudo passa? Assim o teu amor muda e passa, mas somente pelo amor que não passa; e, pela coragem que não passa, passa e torna-se a coragem; eis por que mais uma vez as nossas inumeráveis vidas são eternamente nossas. Esta grande ideia foi desenvolvida pela revolução cristã, e cem vezes retomada, até à palavra de Spinoza o imóvel. “Nós sentimos e experimentamos que somos eternos.” Mas sempre queremos procurar o eterno algures que não aqui; sempre voltamos o olhar do espírito para qualquer outra coisa que não a presente situação e a presente aparência: ou então esperamos morrer, como se todo o instante não fosse morrer e reviver. A cada instante uma vida nova nos é oferecida. Hoje, agora,  imediatamente, só podemos pegar por aí. O que farei amanhã, não o posso saber, porque não estou no amanhã. O que posso fazer de melhor pelo amanhã, é ser sábio, temperante, corajoso, justo, hoje. E o passado, também não é meu. E até, coisa digna de atenção,  só por este louco pensamento de que me possui é que ele me possui; porque o eterno movimento do Timeu faz-nos dias novos e minutos novos. Mas a nossa falta é tentar uma vez mais a velha astúcia, esperando em que Deus mudará. Eis por que me afeiçoei ao conto de ER, e quis fazer por mim essas escolhas eternas, e esse juízo, em todos os sentidos da palavra, de mim por mim mesmo a cada instante. A fim de que tu, leitor, e eu, sejamos dignos de Platão pelo menos um belo momento. Porque esta presença do eterno e ouso dizer esta familiaridade com o eterno, enfim esse outro mundo que é o mundo, e essa outra vida que é esta vida, é propriamente Platão. E este sentimento, que eu quis despertar, que é como um celeste amor das coisas terrestres, não soa em nenhum outro como nele.
Alain
(Tradução de José Ames)

sábado, 28 de janeiro de 2012

O SACO

X


“A virtude parece pois ser uma saúde, uma beleza, um bem-estar da alma, e o vício, uma doença, uma fealdade e uma fraqueza.”
             (A República)


Vamos ao centro. O que há neste saco de pele, que se chama, conforme o caso, justo ou injusto, sábio ou louco? Eu vejo três animais em um, e que fazem uma estranha sociedade. A cabeça, animal calculante, lugar de memória e de combinação, assemelha-se bastante a algum Pitagórico, todo inteiro no espectáculo, e que esquecesse o seu corpo. Todavia, não o esqueceria por muito tempo. Porque este sábio está encerrado na companhia de dois monstros. O tórax, lugar do coração, lugar do sentimento, lugar do arrebatamento, é todo força, todo riqueza, todo cólera. Aqui reside essa parte do amor que é coragem; aqui tudo é generoso e de puro dom; porque, na cólera, é a própria força que desperta e mantém a força; de que o músculo oco é a imagem, uma vez que se desperta a si mesmo aos seus próprios golpes. A este monstro, que resolve tudo pela força, podemos chamar leão. Abaixo do diafragma encontra-se o ventre insaciável de que fala o mendigo de Homero; e chamar-lhe-emos hidra, não ao acaso, mas a fim de lembrar as mil cabeças da fábula, e os inumeráveis desejos que estão como que deitados e dobrados uns sobre os outros, nos raros momentos em que o ventre dorme. E o que habita aqui ao fundo do saco, não é riqueza, é pobreza; é essa outra parte do amor que é desejo e carência. Aqui está a parte rastejante e medrosa. E a condição do homem, assim feito de três animais, é que ele não pode deixar de se irritar, nem deixar de se alimentar. O sábio encontra-se assim ao serviço do leão e da hidra, e na mais íntima vizinhança, de tal modo que enquanto  primeiro não tiver estabelecido a paz entre eles, e depois entre eles e si, nenhum outro pensamento lhe poderá ocorrer que não seja de necessidade e de cólera.

Esta espécie de fábula aparece em A República quando se faz o famoso paralelo do homem e do Estado. Mas o ponto difícil desta análise estava havia muito tempo esclarecido pela distinção outrora clássica, do desejo e da cólera. Um exemplo cheio de sentido e de ressonância explica ao mesmo tempo estranhos desejos, mais fortes do que a razão, e uma bela cólera, aliada da razão. Um homem  apercebe-se  de longe, abaixo das muralhas, de corpos de supliciados. Não pôde resistir ao desejo de ver de mais perto, desejo feito de medo e de horror, desejo cobarde, não mais cobarde do que os outros. Então, em cólera consigo mesmo, diz: “Ide, meus olhos, regalai-vos com este belo espectáculo!” Reconhece-se neste exemplo esse ar de negligência pelo qual Platão procura e obtém uma atenção especial. Porque espantamo-nos, e passamos, como com os cadáveres, mas de maneira nenhuma se esquece. Platão quer  somente  mostrar
então que a oposição é possível entre o desejo e a razão no mesmo homem,  e também entre a cólera e o desejo; mas uma ideia espantosa, e de grande valor, nos é ao mesmo tempo lançada como se nada fosse, é que, no conflito entre a cólera e o desejo, a cólera é sempre a aliada da razão. Assim, se quiserdes compreender o que a paixão recebe do desejo, que é pouca coisa, e, pelo contrário, todas as nuanças da irritação e do arrebatamento que coloram a nossa vida mediana, reparai nessa força galopante, que se excita com o seu próprio ruído. Mas se quiserdes tocar o lugar do sentimento, e o segredo dos seus movimentos partilhados entre razão e desejo, visai ainda esse centro de entusiasmo, e de felicidade de despender. As análises modernas esquecem comummente este terceiro termo, a cólera,  e esforçam-se por compor o homem  de desejo e de razão somente. É esquecer a honra; é esquecer os jogos gémeos do amor e da guerra.

Pegando agora no homem  todo, nós temos a justiça do homem. Temo-la, porque ela está no círculo dos caçadores, como Sócrates diz, mas não a apercebemos ainda. Desviemo-nos; conduzamos uma outra caça em volta do Estado, caça mais fácil; porque, no Estado, circula-se, vê-se quase tudo a descoberto. Aqui ainda uma cabeça e uma razão; são os reis, entendei os sábios. Aqui a multidão dos desejos, que são os artesãos de todos os ofícios. Aqui o coração, princípio da acção e da cólera, e são os guerreiros. Ora, pelo governo dos sábios, três virtudes se mostram. A temperança é a virtude própria aos artesãos num Estado bem governado; porque os sábios não permitirão que os monstruosos desejos criem ofícios à sua medida. A coragem é a virtude própria aos guerreiros;  porque, se os reis são prudentes, essa força não seguirá a sua lei de arrebatamento; mas os guerreiros, semelhantes aos cães,  irritar-se-ão e  acalmar-se-ão segundo os desígnios dos seus mestres. Enfim, a sabedoria é a virtude própria dos reis; quer dizer que eles saberão distinguir a verosimilhança, o hábito, a verdadeira prova, e enfim a fonte das provas, assim como se explicou aqui acima. Donde, voltando ao homem, outra sociedade, mais fechada, menos fácil de percorrer e de conhecer bem, definiremos facilmente a temperança, a coragem, e a sabedoria em cada homem. Mas, reparai bem nisto, a justiça escapa-nos ainda. Todavia, ela não pode ficar muito tempo  escondida, porque nós passámos tudo em revista. E permanece que a justiça, no Estado como no homem, consiste numa certa relação, que exprime que as três ordens, ou as três forças, têm o peso e a importância que lhes convêm.

Harmonia, conveniência, proporção, diremos nós. Mas não apanhámos ainda a ideia. Falta-nos de novo percorrer o Estado, e depois o homem, a fim de pesquisarmos em quê e por quê esta harmonia e esta proporção são  tantas vezes perturbadas. A ideia só aparecerá se agarrar qualquer coisa, e é voltar a descer à caverna. A perfeição do Estado não é difícil de conceber; porque a parte que é própria para governar é muito claramente aquela que sabe, como aparece no navio. E tanto quanto a verdadeira ciência regulasse, dos guerreiros o número, a educação e as acções, dos artesãos os ofícios, os ganhos  e os empreendimentos, nós teríamos a aristocracia, ou o governo do melhor, coisa miraculosa, que não se verá sem dúvida jamais entre os homens. Mas que veremos segundo o peso da natureza, se supusermos que, num Estado perfeito, os reis, conforme a inclinação do homem, porque cada um  arrasta todo o saco, são levados a esquecer as regras severas da verdadeira ciência? Primeiramente, é a honra que governará. Mas não se pode permanecer aí; e é preciso que o Estado sem cabeça desça ao mais baixo; primeiro pelo governo dos ricos, e finalmente, por causa do monstruoso desenvolvimento dos ofícios e dos desejos, que é inevitável num tal regime, pelo governo dos desejos, ou dos artesãos, que se chama comummente democracia. Estado feliz, mas não feliz por muito tempo, porque é preciso que o mais poderoso desejo reine, e tal é o tirano. Toda esta análise é de ler; um resumo só pode advertir. O menor detalhe abre vistas e caminhos.

Porém o objecto político não é aqui o principal. Não esqueçamos que estes sistemas políticos têm por fim  explicarem-nos o interior do homem. O objecto político não é mais do que uma outra fábula, um espectáculo, que, porque vai como vai, e muito ingenuamente, deve dar lição ao sábio, o qual em primeiro lugar tem a si próprio a cargo. E é sempre verdade que a amarga lição deste grande movimento, no qual somos apanhados, é o que nos desperta  e nos esclarece a nós mesmos. Por não se ter considerado o tempo suficiente o objecto político, cujos segredos estão debaixo dos olhos de cada um, como se apreenderá, como por arrombamento ou adivinhação, o segredo dos outros e de si? Aqui as visões mais profundas, sobre o homem de honra, já sem cabeça; e depois sobre o homem rico, inutilmente estabelecido na fronteira dos desejos, e tentando governá-los uns pelos outros. É preciso que os desejos tomem o comando; todos; todos iguais; e eis o homem democrático. Tu não acabaste, leitor, nem eu, de apreciar pelo seu valor este encantador retrato dum homem encantador que não é capaz de se recusar nada. Como a paixão o espreita e o toma todo, é o que é representado segundo um movimento épico, e pelo meio de metáforas políticas. O maior dos desejos, reunindo o exército dos desejos, toma a cidadela, encadeia a razão, e força-a a produzir as opiniões que agradam ao senhor. Mal se ousa resumir essa pintura incomparável da paixão, e juntamente do governo tirânico. As revoluções não souberam sem dúvida ensinar a política a ninguém; pelo menos deviam ensinar a muitos o conhecimento dos homens e o preço da sabedoria. De resto, é natural que o homem volte da sociedade a si, e a regular os outros regulando-se a si. Procurando pois em A República a nossa própria imagem, temos que compreender em que sentido se pode dizer  dum homem que é aristocrático, timocrático, plutocrático, democrático, tirânico. Nesse sentido, em primeiro lugar,  que é o mais exterior, é que cada um desses homens é o cidadão qualificado no Estado político que o representa. Mas devemos desviar-nos desta relação exterior, que nos levaria a pensar politicamente. Antes bem é preciso reconhecer, nestes tipos de homem, exemplos dessa desordem interior que define a injustiça. Isso nos conduzirá a formar a ideia mais rara e ainda hoje mais nova. Porque Platão, quando concebe o Estado justo, não olha a nada à sua volta, aos seus vizinhos, às trocas ou às guerras que ele conduz. Tudo o que faz o Estado justo, pelo impulso da sua harmonia própria, tudo isso é justo; e, pelo contrário, tudo o que faz o Estado injusto, entendei mal governado, tudo isso é injusto. Julgar pelos efeitos, é apenas opinião. Eis já uma fonte de meditações sem fim. Porque é formando esta ideia bastante escondida que se apreenderá talvez a verdadeira relação entre direito e força. Não que a força dê direito, porque a força depende também dos acasos, somente se entrevê que, supostos iguais todos os acasos, a justiça interior daria força. Mas, ainda uma vez, desviemo-nos de política; desviemo-nos dos dois Dionísios e de Dion, se podemos. Um outro governo foi depositado nas nossas mãos, que não podemos enjeitar. Olhemos por fim o homem, e formemos esta ideia de que o homem é justo, não pelas ocasiões e a relação exterior, mas pela própria justiça que traz nele, pela harmonia das suas diversas forças. A acção exterior, e digamos política, é sempre ambígua. Diz-se que não é justo tomar o bem de outrem. Mas o quê? Tirar a arma a um louco, ou a  uma criança, não é ser justo? Arrombar a porta do vizinho para extinguir o fogo, não é ser justo? Em resumo, não há nenhuma regra de justiça, a não ser interior, e todo o roubo se regula entre desejo, cólera, e razão. Não julgues os outros, e julga-te a ti mesmo pela tua íntima política. Aqui está posto o indivíduo  na sua independência, como talvez nunca se haja posto. Porque nós não ousamos nunca receber em todo o seu sentido a máxima famosa: “Ninguém é mau voluntariamente.” Sabemos bem que ela implica que o homem livre não comete faltas. De resto, não há talvez um moralista que se prive completamente  de julgar o seu vizinho. Ora, se seguimos Platão, toda a nossa moral se encontra limitada a nós mesmos, e ao segredo da nossa consciência. O que é injusto, diz Platão, e são os seus próprios termos, não é que tu tires o bem a outrem, é que to não lho possas tirar sem derrubares em ti mesmo a ordem do superior e do inferior. Aqui ressoa já a palavra evangélica: “Aquele que deseja a mulher do seu próximo é por isso mesmo adúltero.” Mas Platão, não menos forte, é mais subtil, mais cruel,  dever-se-ia dizer, para as nossas satisfações preguiçosas. Porque mesmo uma acção justa, evidentemente justa, tu não a podes fazer justa se não fores interiormente justo. Não existe moral mais forte; e é a moral de toda a gente. Porque quem admira um homem probo, se suspeitar que é um misto de avidez e de cobardia que o torna probo? E a testemunha verdadeira que só é verdadeira pelo medo do juiz, quem a admira? E o soldado que ataca muito apesar de si, e que não cessa de fugir dentro dele, quem o admiraria? Mal colocado aqui, é verdade, para julgares os outros, mas muito bem colocado, pelo contrário, para te julgares a ti.

Nós somos levados pelo movimento deste pensamento impetuoso, o qual, desde que Sócrates o tocou, se move sempre de fora para dentro. Reencontrar essa segurança de si, esse cento do juízo, é o que importa. Mas permanece qualquer coisa de obscuro na doutrina, e eis o que é. Transportando para o homem as virtudes do Estado, definimos sabedoria, temperança, coragem. Não será que estas três virtudes fazem a justiça? Haveria ainda injustiça no homem purgado de irritação e de inveja? E estas duas virtudes de coragem e de temperança não fariam, com a sabedoria à qual estão submetidas, essa harmonia que é a justiça? A justiça seria então apenas um nome para as três virtudes tomadas em conjunto? Pode-se resolver assim, parece-me. Mas quando se lê Platão, e por essa maneira que é a sua de abrir só um pouco a porta, e muitas vezes voltar a fechá-la, ganha-se sempre em querer compreender até à menor palavra. Pois bem, o que significa essa justiça, que não é nem a sabedoria, nem a coragem, nem a temperança, mas de algum modo um compromisso e uma composição das três? O que é? Por exemplo, limitar a temperança pela coragem, se, lançando-se num cometimento extremo, se passam por precaução os limites do comer e do beber; ou, ao contrário, limitar a coragem pela temperança, se se evita um género de cólera que é desordem e desmesura, embora a razão a aprove: ou então limitar a sabedoria ela mesma, o que é dar lugar à acção e ao desejo numa vida bem composta. Aqui a ideia desenha-se um pouco. Agora, sob a temperança, que é apenas regra negativa,  pensemos a vida nessas necessidades que sempre renascem, nesses prazeres mutáveis que acompanham a saciedade. Reconhecer, receber em si isso mesmo, esse animal que pasce, e prometer-lhe ser, em vez de o reduzir tanto quanto se pode segundo esse ascetismo que se chama temperança, não é justiça em relação a uma parte de si? Da mesma maneira que o sábio monarca, que governa sobre os artesãos, se ele os desprezasse não seria justo, pois que ele próprio vive deles. E, por esse lado, haveria portanto um excesso de temperança, dir-se-ia quase para além dos nossos direitos, e que seria injustiça, como a intemperança seria injustiça  em relação à sabedoria? Quanto à cólera, fonte da acção, sorriso da acção, ou digamos melhor, digamos quanto ao arrebatamento, não haveria um excesso de sabedoria, que seria uma recusa de viver segundo a natureza recebida, e, por uma consequência natural, uma recusa de viver como os outros homens e com eles? Um esquecimento deste mundo de cólera e de desejo? Uma ausência aos homens? A justiça então suporia e mesmo exigiria que se seja homem e com os pés na terra, e que se faça guerra e processo como todos fazem, e que se seja juiz por sua vez; que enfim se compreenda também o inferior e a humilde animalidade, fora de si e em si. Não se deve? Aqui há um pouco de subtileza a mais sem dúvida, que porém faz apreender bem que o equilíbrio entre o ventre e o coração, e mesmo a cabeça, é outra coisa que não a temperança e a coragem, outra coisa, mais difícil e mais bela, tanto quanto seria mais difícil e mais belo viver do que morrer. Este pensamento acorda-se bem com o nosso rústico Sócrates, e não menos com esse Platão tornado velho que volta à Sicília, e medita, segundo uma fórmula famosa desde então, mais sobre a vida do que sobre a morte. Eis um exemplo desses desvios, nesta doutrina prodigiosamente rica, e dessa secreta correspondência entre a vida retirada e a vida segundo as leis do Estado. Haveria pois fraternidade, como nós dizemos, na justiça, ao passo que ela não existe nem na temperança nem na coragem. Platão abre-nos estes caminhos e muitos outros. Seguindo por aí,  encontrareis mais uma vez a ideia, a enigmática ideia, que sempre nos lança de objecto em objecto, e que apenas mostra os objectos mas não se mostra a ela.
Alain
(Tradução de José Ames)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

GIGÉS

IX


“Se houvesse dois anéis deste género e que o justo tivesse um, onde está a alma de diamante que seguiria a justiça?”
             (A República)




Mas um dia dois jovens leões escutam, dois jovens cheios de fogo, ambiciosos de ser e de vencer. São Adimanto e Glauco, os irmãos de Platão. Ora os discursos dum Cálicles ou dum Trasímaco não lhes ensinam nada que não soubessem. Como diz Sócrates, é só isso que se ouve. “Grande justiça!” como diz o outro. E a ordem útil, que quereríamos sagrada, e a rica presa de honra e de riqueza prometida ao ambicioso, são os lugares-comuns da história. Porém, a negação destas coisas, tranquila em Sócrates, traz a uma luz crua aquilo que não se diz completamente, e,  acabando a prova, desperta talvez a dúvida. Porque não é um grande partido fazer o que todos fazem, mas é um grande partido  julgar que têm razão. Temos mais vergonha dum pensamento do que duma acção. Uma acção não compromete; mas, se nos ligamos, diante de nós mesmos, por alguma máxima terrível, somos privados então das virtudes de ocasião; é preciso que se acabe conforme a máxima. Eis por que o prudente Protágoras não pensa nunca aquilo que pensa; mas esta prudência só se encontra num homem fatigado. Quando a barreira cai, os corcéis lançam-se; assim se lançam um e  outro, a fim de acabar o discurso temível. E, como diz Homero: “ Que o irmão traga socorro ao irmão.” Platão, tu não estás longe.

Ora, dizem eles, pode ser que homens de idade e sérios sejam levados um pouco além das leis que fizeram, ou então um pouco ao lado, sem pensar muito. Ou então, se pensam, é apenas um jogo para eles, que torna os movimentos da glória assegurada um pouco mais livres. Mas para nós, que nada fizemos ainda e nada jurámos, para nós todo o futuro está sobre o fio do sabre. Trata-se de se lançar aqui ou ali; porque esta idade não faz nada por metade. Pois bem, dizem eles, cada um por sua vez, é preciso que tudo seja decidido aqui e lá em cima. De deuses e  homens a última palavra. Ou então toda a injustiça, sem remorsos, segundo o instinto, segundo o desejo,  segundo o prazer, pelos imensos meios do sangue nobre e da aclamação. Ou então, se é verdade que é melhor assim, toda a justiça. Mas, Sócrates, não basta que tu nos digas que é melhor; é preciso que tu o proves. Essa censura que tu és, é preciso que fale claro. Porque a virtude dos nossos cadernos e dos nossos livros, a virtude segundo os nossos mestres, e segundo os nossos poetas, e segundo os nossos sacerdotes, é apenas prudência, é apenas medo. Este contrato de sociedade, esta religião da ordem, esta preocupação de não prejudicar, não é senão medo. E medo de quê? Os vencidos amar-nos-ão. A glória de longe teme a censura, e encontra o aplauso. Os próprios deuses, pelo que nos ensinam, se deixam influenciar pela hecatombe. Trata-se só de ousar. Pois bem, Sócrates, nós ousaremos. O que nos agradar, para aí nos conduziremos dum modo seguro; porque é assim que se ultrapassa o risco, e o inimigo torna-se desprezível pelo desprezo que dele se tem. Que não venham pois dizer-nos para tomarmos cuidado, e que assim como fizermos, assim nos será feito; porque é o que acontece aos fracos, e nós não nos sentimos fracos. Tu não o quererias. Tu mesmo, Sócrates, se achasses bem empreender, e se só tivesses o perigo entre a tua iniciativa e tu, corarias por esperar.

Ou então é que há outra coisa, outra coisa além dos poderes, outra coisa que tu conheces e que não dizes. Não esses juízes de opinião, que só condenam os fracos, mas um juiz interior, forte nos fortes. Um juiz que não impede; que é só razão e luz; que não se pode flectir; que pune pela vontade mesma; por essa mesma vontade que escolhe a um tempo a injustiça e o castigo. Um outro deus, que apenas deixa ir as consequências íntimas, e assim que não pode perdoar. Mas é preciso dizerem-nos como é que isso se faz, sem nada opor a nós mesmos senão nós mesmos. Separa pois violentamente o justo e o injusto. Que o injusto seja honrado pelos homens e os deuses, assegurado de poder, de amigos, de riqueza, e de longa vida; e prova-nos, porque nós sabemos que tu o crês, que ele tomou o mau partido, e que se prejudicou a si mesmo. Em contrapartida, desenha o justo completamente nu. Que ele seja desprezado pelos homens e pelos deuses, aprisionado e crucificado pela sua própria justiça, e prova-nos que ele seguiu o bom caminho, e que se serviu bem a ele mesmo, como o melhor e o mais sábio dos amigos o teria servido. Escuta enfim a história de Gigés. Não era um mau homem. Fazia o seu ofício de pastor como ele se faz, mas era porque não podia fazer de outra maneira;  era porque não via o meio de fazer de outra maneira. Tu sabes como o acaso o fez encontrar um meio, esse anel que o tornava invisível desde que virasse a pedra no engaste para o interior da mão. Tendo descoberto por acaso este segredo maravilhoso, esperou apenas o tempo suficiente para se certificar disso, e ei-lo que parte, ei-lo na corte. Mata o rei, seduz a rainha, reina. Ora, se Cálicles e Trasímaco têm razão, se todos os nossos mestres e todos os nossos poetas têm razão, Gigés fez bem. E se a sorte nos der um anel semelhante ao seu, faremos como ele. Não digas que um tal anel nunca foi dado a ninguém. Não o digas, porque tu sabes bem que todo o homem tem um anel desses, desde que já só tema o seu próprio juízo. Vamos; diz-nos o que Gigés não sabia; o que o teria feito estacar se o soubesse; que o teria feito talvez deitar fora o seu anel, como  deitaremos, nós, o poder, se tu nos instruíres; porque então seria o pior perigo, como tu o disseste, de tudo poder impunemente. Enfim, diz-nos como é que Gigés se puniu a si mesmo.

Foi assim que Adimanto e Glauco intimaram Sócrates; e foi assim que aos dois primeiros livros de A República foram acrescentados os outros oito, em que a doutrina da justiça como saúde da alma é amplamente exposta, e também o verdadeiro juízo de Minos, e o grande risco em que estamos de apenas sermos punidos por nós mesmos. Ou melhor, é o próprio Platão que intima a sombra de Sócrates, e o ouviu falar como o fazia quando estava vivo. E tudo está disposto, neste Diálogo ilustre, segundo a dupla prudência de Sócrates e do seu discípulo, de modo a preparar o espírito do leitor atento, de modo a desviar também os espíritos frívolos. Eis por que não serviria de nada resumir A República; mas pode-se, esclarecendo sobretudo as ideias que o leitor não encontra logo, apagar a impressão viva e desmedida que fazem as vãs utopias, e da qual mesmo o prudente espírito de Aristóteles, coisa incrível, guardou a marca invencível. O facto é que os dez livros de A República são a melhor prova para o homem que pretende saber ler. Porque tudo está ali, e em primeiro lugar que A República não trata de política. Sócrates  adverte apenas isto, que é uma ideia inesgotável e quase insondável, que o corpo social sendo maior do que o indivíduo e assim mais legível, é no corpo social que é preciso procurar primeiro a justiça. Ora, todos os segredos da doutrina platónica estão aqui reunidos, e como que fechados uns sobre os outros. Porque se se entendesse que o indivíduo só é justo pela sua participação num estado justo, cair-se-ia no discurso do sofista sobre a justiça conforme a lei política, e não é isso certamente o que Platão nos quer fazer entender; a justiça individual não é de modo nenhum a justiça segundo a sociedade. Mas, por outro lado, a justiça do Estado é tomada como justiça individual, como justiça apropriada a esse grande corpo. Assim é verdade também que o homem justo todo inteiro, relacionado com as suas diversas forças, é análogo ao Estado todo inteiro. De maneira que, no Estado justo, não é o guerreiro que é justo, nem o artesão, nem mesmo o magistrado; mas é o Estado que é justo. E do mesmo modo no homem não é o coração que é justo, nem o ventre, nem mesmo a cabeça; mas é o homem que é justo. Neste sentido pode-se dizer que o Estado e o indivíduo participam da mesma justiça; o que não quer dizer que o homem seja alguma vez justo pelo Estado justo do qual seria uma parte. Enfim, encontra-se aqui a ideia indivisível, separada e inseparável. Porque a justiça não pode mais pertencer a uma das partes, seja do Estado, seja do homem, do que o cinco a um dos cinco ossículos. Assim a ideia é separável, e mesmo separada num sentido. Mas, por outro lado, que há de mais substancial ao homem, e a ele mais íntimo e pessoal, do que a sua própria justiça? Porque não é a sua justiça própria, a justiça dele, por ele medida, por ele eternamente medida, que ele fará por esse governo, seja de tal cólera e de outras cóleras, seja de tal desejo  e de outros desejos, seja de tal ciência, composta de tal sentimento e de tais apetites? Dois homens são diferentes; dois homens justos serão diferentes, e pela própria justiça. Eis pois mais um exemplo duma mesma fórmula rigorosamente comum a soluções diferentes. Como Spinoza disse que o homem não tem necessidade nenhuma da perfeição do cavalo, assim nós diremos que ao homem não pode servir a justiça do seu vizinho. Por um efeito de reflexão que espanta sempre, é a obrigação de reencontrar a ideia no ser sempre diferente e sempre mutável, que nos salva de dormir sobre a justiça de ontem. Ousar-se-ia dizer mais; ousar-se-ia dizer que é a própria dificuldade da doutrina teórica, a variedade dos toques, a distribuição inimitável das luzes, enfim a lenta iniciação, que assegura aqui a eficácia da doutrina prática. Se, portanto, o resumo que vai seguir-se tivesse os caracteres da evidência feita - é muitas vezes a fraqueza dos resumos, seria preciso recordar a presente advertência.



Alain
(Tradução de José Ames)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

CÁLICLES

VIII



“Não é porque se receia cometê-la, mas porque se receia sofrê-la que se censura a injustiça.”
(A República)



Trata-se agora do justo e do injusto, e não para amanhã. Não para os outros, não a respeito dos outros. Não. Cada um encerrado na sua forma e reduzido a si, cada um tem o que baste de si próprio, o bastante para se salvar. Entre os loucos ou entre os sábios, não importa. Se a tua justiça dependesse do vizinho, tu poderias esperar; gostarias talvez de esperar. Sem dúvida é bom, a fim de corrigir esta ideia em toda a sua força, deixar agora Deus como ele nos deixa, repetindo esta palavra de Marco Aurélio: “ Mesmo que o universo estivesse entregue aos átomos, que esperas para pôr ordem em ti?” Esta ideia estendeu-se, mas também se dispersou, separada das suas fortes razões; tão velada hoje como nesses tempos pelo nevoeiro político. Eis por que o primeiro erro, e de grande consequência, é crer que A República é um tratado de política; este erro será corrigido; mas é preciso começar pelo Górgias. Aqui se encontra a mais forte lição de política, tão forte que os mais fortes a custo ousariam seguí-la. Por uma vez o ambicioso falou.

Mas a fim de imitar passavelmente esse ar de sabedoria, essa impaciência, essa ironia, essa bonomia, esse cinismo, enfim a importância apoiada na instituição, seria preciso reunir o círculo de sofistas, entendei homens de Estado, advogados, juristas, críticos, onde se veria Protágoras o profundo, Górgias o indiferente, Pólos o brilhante, Pródicos o subtil, Cálicles o violento, Trasímaco o espesso, e ainda Hípias o ingénuo, Íon o vaidoso, aos quais se juntaria Laques e Clínias, generais do exército, homens de mão e de empreendimento. Enfim, reunir o congresso do pensamento. E seria preciso mesmo formar com todos esses rostos um único rosto, em que a cortesia, o espanto, a impaciência e o aborrecimento passassem cada um por sua vez como nuvens sobre posições inexpugnáveis, enquanto Sócrates, na sua busca do homem, e tomando por verdadeiras estas forças, mais uma vez procurasse acordo e pensamento comum. Ora, naquilo que ele diz, há coisas que são evidentes, sobre o bem e o útil, porque são palavras que ninguém despreza; também sobre a coragem, a temperança, a sabedoria; porque estes homens de experiência não vivem à maneira dos animais, mas estimam muito pelo contrário um regime de elegância, de segurança, e de força governada, de que as estátuas dos Deuses são as justas imagens. Todavia, Sócrates dizendo que vale mais ser justo do que poderoso vai um pouco longe, embora isso seja fácil de dizer e de fazer crer. Sócrates dizendo que vale mais ser justo e passar por injusto do que ao contrário ser injusto e passar por justo, Sócrates desta vez vai demasiado longe, porque é desprezar a opinião, e isso não se deve dizer nem fazer crer. Mas ele diz mais; e, pelas aprovações de polidez que obteve sem dificuldade, ei-lo a provar que a pior infelicidade do injusto é não ser punido, deixando entender que a mais estrita severidade, mesmo dos Deuses, é abandonar aos seus sucessos o homem que tem êxito. Isso revolve-os até ao fundo, tanto mais que ele parece acreditar nisso; e é ainda dizer pouco; ele está, crer-se-ia, seguro disso, e seguro de que todos estão seguros disso. Aqui há excesso. Eles apercebem-se do ponto em que as sãs doutrinas, que fazem com que os homens sejam fáceis de governar, justamente por uma espécie de arrebatamento em experimentá-los e por um bocadinho de persuasão a mais, fariam com que os homens fossem impossíveis de governar. Eis pois que um pouco mais de sério se mostra no rosto impassível das forças reunidas. A força fala alto a si mesma, e retoma as coisas desde o começo.

“Certamente, diz ela, que conheço o preço da ordem e das leis. É mesmo evidente que os poderosos, mais ainda do que todos os outros homens, devem honrar a justiça; de tal maneira que se pode dizer que, homens resignados e contentes com pouco, como tu és, Sócrates, não haverá nunca que cheguem. Mas os simples cidadãos eles mesmos ganham muito em respeitar as leis; muito e mesmo tudo. Que seriam os miseráveis homens, se cada um devesse incessantemente combater a fim de conservar as suas magras provisões? Por isso é que em todo o lado os vemos associados e formando cidades que protegem os campos. E qual é a lei de toda a associação senão esta: “O que não queres sofrer, renuncia a fazê-lo sofrer aos outros”? E este pacto não podia ser recusado, porque dois homens associados são mais fortes do que um homem que pretendesse viver sozinho. Neste sentido pode-se dizer que a justiça é o que é vantajoso ao maior número, e pode-se dizer também aos mais fortes. Evidentemente o homem teria mais vantagens, parece, em agir como quisesse, em tudo seguindo os seus apetites e os seus interesses, e agarrando todos os bens que visse ao seu alcance; sim, se ele tivesse o poder de manter contra todos esta política conquistadora. Mas ninguém tem esse poder fora de sociedade; ninguém, melhor dizendo, tem qualquer poder fora de sociedade. Por isso, nesta impossível guerra de um contra todos, o homem não ia longe. Ele renuncia pois a esse bem, tão incerto, tão encarecidamente pago, sob a condição de que os outros a ele renunciem também; e todos em conjunto nomeiam juízes que têm por função constatar que cada um renuncia àquilo que proíbe ao vizinho, ou de reconduzir as revoltas à obediência; no que eles não fazem mais do que prever e antecipar os efeitos inevitáveis; não fazem outra coisa que não encurtar desordem e luta. Agora, Sócrates, presta bem atenção. Seria absurdo pensar que o homem pudesse ser justo ou injusto a respeito daqueles com quem não tem qualquer convenção, ou contrato; absurdo também querer que um homem se abstenha de fazer aquilo que ele vê os outros se permitirem. Tal é portanto a justiça segundo a lei. Mas segundo a natureza, é justo que cada um faça exactamente aquilo que pode fazer; e o limite das forças é também o dos direitos. Eis o que toda a gente sabe; Eis o que todos os sábios ensinam. Louco aquele que se pusesse em guerra sozinho contra a multidão dos homens. E todavia a natureza fala eloquentemente ao coração de todos. Porque nós vemos que o que se contenta com o poder que lhe deixam é desprezado. E pelo contrário vemos que todos os homens estimados se tornaram poderosos, seja pelos bens que amontoam, seja pelos amigos a quem se ligam, quer dizer pelas liberalidades e pela arte de persuadir. São poderosos e honrados no Estado esses que têm qualquer coisa para dar ou que sabem defender os seus amigos. E os mais ousados deles que chegam, por uma espécie de exército que têm consigo, a submeter os outros, são honrados acima de todos. Quanto àquele que não joga mais ou menos este jogo, seja porque tem medo, seja porque se deixou persuadir, é considerado como um homem de pouco, e não tem amigos. Repara; aquele que não ganha nas trocas, quer dizer que não recebe mais do que o que dá, é abertamente desprezado. Se além disso se diverte com discursos não pagos, como tu fazes, e critica uns e outros e até as leis, como tu fazes, nada é mais fácil do que acusá-lo e de prejudicá-lo, porque não prestou quaisquer serviços. E que faz ele de facto, quando desenvolve a opinião vulgar à maneira dum homem que acredita nisso de facto, senão inquietar o ambicioso, e retirar aos pobres a esperança que sempre mantêm duma ocasião ou duma reviravolta que atirará o poder para o seu lado? A comum justiça tem duas faces: tu vê-la guardando a igualdade, até ao momento em que aclama aquele que se eleva. Não pode ser de outra maneira, pois que o homem vive e pensa ao mesmo tempo segundo a lei e segundo a natureza. E talvez não exista falta que se perdoe menos do que desprezar abertamente essa justiça de dupla face, sem a desculpa, pelo menos, de ganhar qualquer coisa com isso. Toma cuidado contigo, Sócrates.”
Ora Sócrates dizia não, esforçando-se de novo por provar que o tirano é fraco e infeliz, se não consegue governar em si o medo, a cólera, e a inveja. Talvez que ele se apercebesse, como o mostra em poucas palavras no começo de A República, de que o poder está muito longe de ser sempre dispensado de justiça, e que pelo contrário uma justiça interior é a mola de todo o poder, por muito injusto que se suponha; porque, dizia ele, os ladrões não conseguirão ser injustos em relação aos outros homens senão sendo justos entre eles. Sem embargo, pode pensar-se que Sócrates, descobrindo aqui uma imensa paisagem de pensamentos, mas também uma discussão sem fim, e sentindo que as melhores razões não teriam força contra o ambicioso tanto como as piores para o abanarem a si mesmo, deseja apenas reencontrar-se em si próprio e no seu discurso. Quanto aos outros, porque foram levados a falar com mais franqueza do que de costume, e mesmo a dizerem alto claramente aquilo que não gostam muito de dizer a si mesmos, eles esgotaram o prazer do jogo. Voltam aos grandes negócios e vão esquecer Sócrates; ou então, se pensam nisso, dizem-se que um tal homem pelo seu exemplo e mesmo pelos seus discursos, é útil aos seus próprios fins. Porque é próprio do homem de Estado, como Protágoras dizia, fazer jogar o útil ou o bem, segundo o caso e segundo os homens. Assim o pensamento mais ruinoso na aparência para esta ordem de coisas, acaba sempre por a servir. O que é apoiado ao mesmo tempo pelo vício e pela virtude durará. É através de reflexões como esta, mas consigo só, que termina as mais das vezes este tipo de conversa.

Alain
(Tradução de José Ames)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ALCIBÍADES

VII



“O que eu queria dizer, é que não nos devemos enganar com essas coisas de que só gostamos com vista a um fim superior amado, e que dele não são mais do que fantasmas.”
(Lísias)


Toda a gente crê saber o que é o amor platónico, e, bem melhor, toda a gente o sabe. Este culto espontâneo, raro, infalível, que fez dum nome próprio uma palavra usual da linguagem comum, mostra-nos o centro do sistema. Nós olhamos, e não sabemos bem onde bater. O amor do bem é universal, mas vai direito ao seu objecto através do vazio; o amor do bem não faz nada. O amor do belo está mais próximo da terra; agarra-se-nos mais ao corpo; as doces lágrimas o testemunham; o bem aqui ele mesmo tem um corpo; o bem toca-nos; admirai esta imperiosa metáfora. Todavia, estamos ainda muito longe de Hipotales passando por todas as cores; estamos muito longe desses ciclones de sangue e de humores que dão a conhecer os amorosos. Pensai no despeito, na cólera, no delírio, nesse corpo que se enrosca, em vez de dormir, como uma serpente cortada. Tal é a prova de todos, e cada um compreende o hino: “Eros, invencível aos homens e aos deuses.” Ora eu creio que é preciso olhar de perto estes impetuosos movimentos que resultam, no corpo humano, dum tão ligeiro toque, da visão, e as mais das vezes duma imagem fugitiva. Ninguém explicaria esta perturbação estranha pela atracção dum prazer; cada um estima por um olhar justo o imenso espaço que se estende entre o desejo e o amor. Todos esses dramas que se lêem, que cada um receia para si, e esse nariz de Cleópatra, tudo isso está muito longe dum prazer curto e animal. Tudo isso é de alma, e mesmo de espírito. Nesta ambição de agradar, e de agradar ao ser mais alto e mais difícil, ao ser que se quer tal, mostra-se logo a mais nobre ambição, que procura o semelhante mais alto do que si, e que se lhe quer juntar. Alceste sofre por Celimene ser vulgar e baixa; ele qué-la sublime; pressente-a tal. É dum espírito que quer louvor, e livre louvor. É decerto belo de ver, esforçando-se em todas as suas acções por merecer esse elogio que ele espera; mas a Celimene faltou a coragem. Ora, uma vez que o teatro testemunha para todos, é evidente que para o juízo dos filhos da terra todo o amor é celeste, todo o amor é platónico. Assim, dum olhar, e bem facilmente, nós percorremos toda a extensão deste grande tema.

Mas demasiado depressa, sem dúvida; demasiado facilmente esquecidos desse animal rugidor e de pé; ainda bem mais esquecidos desse animal que digere que só está feliz deitado. Platão, de mil maneiras, e sem nenhuma preparação, expõe-nos o nosso lote; aqui muitas vezes violento, feridor, ofensivo; atento, parece-me, a desagradar, pela viva pintura dos movimentos súbitos, os quais, se bem que participando do mais alto da alma, não importa, não mexem menos, nesse turbilhão indivisível, toda a vasa marinha sobre a qual repousa a nossa transparência. Há pior do que Hipotales vermelho e suado; há o Cármides, onde o próprio Sócrates ressente um choque confuso, e, coisa que importa saber, é todo empolgado por um celeste desejo, por uma incorporal amizade. Não pode ser de outra maneira porque a nossa alma, no seu movimento imitado das esferas superiores, não deixa de nos arrastar e de formar, com grande perigo, uma argila pesada. As doces lágrimas, dizia eu, o testemunham; ora este suor de lágrimas sublimes é da mesma água e do mesmo sal que todo o suor. Platão toma o homem tal como o encontra, abaixo dele mesmo e sem limites que se possam marcar, desde que ele não está em cima. Se, pela mudança dos costumes, Platão vos afecta escandalosamente, e abaixo do que pensais poder ser, a advertência não é senão mais forte. Seguindo Platão que nunca mentiu, que me descreveu a mim mesmo tal como posso ser e pior, e que, tal como sou, me reconheceu imortal, escrevi pois à frente deste capítulo o nome de Alcibíades, mau companheiro.

Sócrates amava-o. Sócrates amava-o porque ele era belo. Mas não tenhais receio. Sócrates é grande e puro. Sócrates salvou-se todo; quem não se salva todo não salva nada. Somente é preciso não ler primeiro o Banquete, escandalosa mistura. Todavia àqueles que se surpreenderiam com o Banquete, como àqueles que creriam aqui descer abaixo de si mesmos, eu pergunto o que é que se faz num banquete, o que trituram os fortes dentes, de que óleo espesso se alimenta essa chama do pensamento. Mas uma vez que o comum dos homens não está disposto como Sócrates, a esvaziar a grande taça de oito cótilos sem se embriagar, eu aconselho a ler antes o Primeiro Alcibíades, sempre novo para todos, porém, bastante familiar também, pois que aí se vê a mais brilhante virtude acabar mal, depois de ter brilhado um momento sobre a aparência política. Vê-se aí Sócrates que perseguia Alcibíades com os seus olhos fixos e maravilhados. É que a beleza é um sinal de sabedoria; e todos o sabem; todos compreendem o que a miraculosa Grécia não cessa de dizer pelas suas estátuas. Mas uma estátua é apenas mármore. Quanto mais emocionante não é o homem na sua flor, quando, pelo menor dos seus traços, ele anuncia um justo equilíbrio, e a participação de todos os membros no espírito governante! Milagre, anunciação. Assim Sócrates segue com os olhos essa forma perfeita, espiando essa alma, admirando esse crédito maravilhoso, essa graça, essa marca de Deus. Atento, e não sem censura; Alceste na mesma; porque todo o homem pressente que uma grande alma é também algo de ameaçador, e de poderosa ruína. Assim Sócrates olha para ele, Sócrates que não teve esta graça de ser belo. Eu ousaria dizer que ele olha com uma espécie de nobre ciúme. Tudo prometer, e tudo recusar! Primavera, esperança do mundo, e já glacial decepção. Sabe-se que a vida de Alcibíades foi primeiro frivolidade, corrupção, vaidade proverbial; e que no fim, intrigas, baixezas, traições, foi a mais desprezível talvez de toda a história. Compreendo que Alcibíades perguntasse, com uma espécie de impaciência e talvez de vergonha: “Sócrates, que me queres tu?” Por isso esta conversa tão jovem soa como a derradeira conversa. Alcibíades faz luzir a última esperança, por uma curiosidade viva e forte; e Sócrates também dá a última advertência. No Banquete, agora, Alcibíades responde com esse sublime elogio erguendo-se do inferno, e que eu creio inútil citar. “Esta minha forma prometia de mais.” Assim, diante de algum Sócrates rústico, falou mais de um filho do sol, antes de se precipitar. O leitor sente aqui como no seu rosto este ar da manhã que Sócrates respira, quando sai puro dessa embriaguês, e volta à sua vida habitual. Foi por uma dessa manhãs, aposto, que Platão deixou a política.

Tendo colocado tudo no lugar tanto quanto pude, não posso agora enganar-me sobre esse discurso do Banquete, nem sobre essa mitologia de Aristófanes, o homem das Nuvens, nem sobre esse discurso mais especioso de Pausânias, opondo a Vénus terrestre à Vénus Urânia. Fedro continua a esperar. Fedro não foi liberto desta emoção sublime que visa demasiado alto e demasiado baixo. Agora Sócrates fala, e este conto de mulher do povo que ele nos relata reúne o céu e a terra. Só há um amor, filho de Riqueza e de Pobreza, natureza misturada. Pobreza, porque procura, beleza, sabedoria, não a tem. Mas Riqueza, porque estes altos bens, num sentido, ele os tem; como se pode dizer que aquele que procura não é completamente ignorante; aquilo que procura, ele tem-no. Riqueza; por isso não nos devemos admirar se os primeiros movimentos do amor, diante do enigma da beleza, estejam como que sobrecarregados de pensamentos. E só isso mostra que o deseja não é o amor. Mas a cólera, mais nobre do que o desejo, não é também o amor. O que é procurado, e raramente encontrado, é o outro espírito, o semelhante e outro, procurado pelos maiores sinais, nesse tumulto logo ambíguo, em que o orgulho, o pudor, a decepção, o aborrecimento entrecruzam as suas mensagens. O que é amado, é o universal; é o incorruptível; sim, nesses corpos semelhantes ao de Glauco o marinheiro, todo recoberto de lama e de conchas. Compreendamos que mais uma vez Platão reúne; que Platão só nos fala a nós, e de todos os nossos amores. Mas é preciso insistir um pouco, pois que os homens não acreditam nisso, ou então, se acreditam, logo querem saltar fora deles mesmos. Sim, nestas crianças, que tão bem testemunham, que esclarecem tão bem o Amor cego, que procuramos e que amamos nós senão os sinais do espírito? Que procuramos senão o eterno, nesta duração da espécie que é a metáfora do eterno? Mas mesmo no primeiro amor, tão carregado de desejo, que procuramos nós? De modo nenhum a captura violenta, nem o prazer roubado. Não; mas confiança, mas consentimento, mas acordo livre. Sim, cada um o quer livre; cada um quer uma promessa de espírito. E. depois da beleza, que é o primeiro sinal, ainda outros sinais do entendimento e da aprovação. Um duplo aperfeiçoamento que encarece os elogios e que cumpre as promessas. Donde o amante quer engrandecer aquela que ama, e primeiro crê que é tal como a quer, e ela, ele. Dois espíritos livres, felizes, salvos. Não há uma palavra de amor que não dê este som; não há uma violência, um desejo nu, um acto de senhor, que não seja uma ofensa ao amor. Por isso não há amor que receie o tempo e a idade, e que não ultrapasse os primeiros sinais. Esta espécie de culto, que a morte não interrompe, é talvez o pai de todos os cultos e de todas as religiões. O amor terrestre vai pois naturalmente ao amor celeste, por esta fé no espírito, que procura e que encontra o pensamento no outro. E, pelo contrário, se a união dos corpos não alcançar servir em comum o espírito, o melhor que se sabe entendê-lo, é prontamente amor rompido e querela miserável. Assim cada um sabe bem que todo o amor é platónico, e é talvez Alcibíades caído que o sabe melhor. Donde veio a Platão esta glória difusa, que ele partilha com os estóicos, de ter enriquecido com o seu nome próprio a linguagem comum.





Alain
(Tradução de José Ames)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

TIMEU

VI



“Uma imagem móvel do eterno…
“Deus sensível, imagem do criador, muito grande, muito    bom, muito belo, tal é o céu único.”
             (Timeu)



No alto, em baixo, metáforas que exprimem essas elevações e essas quedas, esses perdões e esses recomeços que são o nosso lote. Não se ousaria dizer que a imensa existência está descrita como é nas célebres imagens do Górgias, do Fédon, de A República. Mas também Platão soube dizer-nos que estas visões de passado, futuro, mortos, renascimentos, não são o mundo tal como Deus o fez. O Timeu não oferece essas nuvens, esses poentes, esses crepúsculos. Pelo contrário, duma claridade fixa,  ilumina o reino das sombras. Aqui é o verdadeiro sol, em relação ao qual o terrível eclipse nada é. Mas, como não é mau jogar ainda com a sombra que nos fez medo, da mesma maneira devemos, ainda uma e vez e mais, desenhar para nós mesmos a aparência do que foi e do que será. Estas viagens de mil anos, estas provas, estas novas escolhas, estas ressurreições sem memória, estes célebres quadros que imitam tão bem a cor dos sonhos, tudo isso representa maravilhosamente a nossa situação humana, e este sério frívolo, esta mistura de lama e de ideias, e ainda esta alma inacessível, indizível, que quer que tudo isso seja, que se esforça, que se transvia e a cada instante se salva, e de novo se perde, sempre ingénua e de boa fé. Porque somos assim feitos, desta mistura, que não há queda sem ressalto, nem também sublime sem recaída.  Cada dia voltamos a cair no inferno, e sempre mais baixo do que cremos, por esse desprezo de pensar. Cada dia o mais sábio dos homens destrói e devora, e não pode sequer libertar-se do prazer, menos incómodo do que a dor, mas mais humilhante algumas vezes. Feliz talvez aquele que não encontra demasiado prazer em descer. Feliz aquele que é primeiro punido. Mas, como dizia Sócrates, teremos sempre que recomeçar?

Tudo recomeça; tudo já foi mais belo; tudo foi pior. Todas as virtudes floriram; todas as faltas foram cometidas. Mas o esquecimento, essa morte, recobre as nossas experiências. Assim, vêem-se as almas do Górgias, no caminho da prova, tristes, e levando a sua condenação escrita nas costas; assim cada um julga o seu vizinho. Essa espécie de luz transversal, sem nenhuma prova, é própria de Platão. Vejo Sócrates mais arrazoador, mais próximo da terra, mais severo também. Parece que a alma altiva de Platão se perdoava mais coisas. E não é verdade também que ele foi iludido até à extrema velhice, formando a esperança ainda de salvar os homens apesar deles e pela força das leis? É contar demasiado com o Demiurgo, ou melhor é imitar do Demiurgo o que muito justamente ele não fez. É erro de imaginação, erro de poeta. É crer que o destino será melhor amanhã do que foi ontem. Mas o destino é imutável, como esses imóveis movimentos do Timeu no-lo fazem entender; e é porque o destino é imóvel que a nossa sorte depende de nós. Sócrates calava-se; mas soube ousar; soube obedecer; soube morrer. Talvez só tenha feito uma metáfora, quando pediu  se se podia fazer uma libação com a taça fúnebre, e que isso lhe foi recusado. Estes traços não se inventam. Não está aqui o mesmo homem que, na sua prisão, aprendia a tocar lira? “Porquê, pergunta o carcereiro, por que queres tu aprender a tocar a lira, se vais morrer?” –Mas, respondeu ele, para saber tocar a lira antes de morrer.” Esta confiança inexprimível, que é a própria vida na sua ingenuidade,  no seu renascimento, Platão, eterno discípulo,  soube exprimi-la na linguagem do corpo, que não engana, mas que só instrui também através duma piedosa imitação. A esperança não é mais do que o canto da virtude. Porque, uma vez que tudo se liga nesta existência tão bem ajustada, e pois que a duração só é pensada como eterna, pode muito bem ser que a existência baste a tudo, e que o homem não tenha tanta necessidade de Deus. Eis por que o Demiurgo do Timeu, depois de ter arredondado os círculos incorruptíveis segundo o mesmo e segundo o  outro, e depois de ter polido o todo por fora, a fim de acabar duma vez toda a existência, retira-se então nele mesmo, deixando aos deuses inferiores, aos génios, aos homens, aos animais, correr cada qual a sua sorte conforme a invariável lei. O que significa esta pronta morte das cidades florescentes, seja pelo fogo, seja pela água, estranho prólogo dessa criação, e a Atlântida no fundo do mar, recife ou banco de vasa que mal desvia as nossas barcas. Esta palavra ressoou mais de uma vez como um canto de alegria ao homem que ultrapassa: “Isso já foi, e será sempre.”

                   Aqui titubeará, sobre a barca sensível
                       A cada ombro de onda, um pescador eterno.  


E se tu perguntas porquê, é porque não sabes o que é um porquê. Como a queda não é de outrora, mas de agora, a salvação não é do futuro, mas de agora; e cada minuto basta a quem pensa, como também os séculos são nadas para aquele que amontoa. Assim, a mitologia toda se dobra, do fundo das idades e do fundo dos céus, toda se dobra sobre o menor dos nossos pensamentos. Aqui, o Fédon  abre as suas profundezas. Reviver ainda? Risco. Belo risco. Mas quem faz a duração? Não revives tu agora do teu sono? Não revives tu o bastante, pois que é agora? E que tens tu que fazer com esse futuro que não é? Onde o eterno melhor do que num pensamento? Valeria tanto esperar o dia seguinte para ser sábio, e saber, e poder. O que é saber amanhã? O que é poder amanhã? Sócrates, aprende a música.

Não há pensamento no mundo que seja tão positivo, tão premente, tão aderente à nossa situação humana do que o de Platão. Tal é o peso de Sócrates neste espírito naturalmente alado, de Sócrates, tão directamente empenhado em viver cada momento, em despertar-se e em salvar-se a cada momento. É verdade também que, pela felicidade de adiar, que é própria da imaginação, os felizes pensamentos do nosso poeta se projectam no tempo, sombras sobre sombra. Assim o progresso se desenvolve num imenso futuro e sem fim, em que mil anos são como um instante. A este futuro responde um passado sem começo, e esse povo das almas, que reencontra em cada encarnação todos os seus pensamentos sem a recordação. Contos? O difícil é dizer onde começa o conto; porque não se pode desconhecer, no Fédon, um esforço continuado com vista a dar ao conto a consistência dum pensamento. É o único caso, parece-me, em todo Platão, onde, em vez de se procurar sem encontrar, se põe primeiro, pelo contrário, o que se quer provar, e se lhe procuram  as provas. É verdade também que tudo treme um pouco no Fédon. Não que Sócrates tenha medo; mas todos esses homens estão como que agarrados a ele. Eles, arriscam-se agora a morrer. Eis por que a esperança acorre dos tempos passados; precisa de outras almas, e que estejam já mortas mais de uma vez. Já mortas? Mas o que faz a alma deles e a nossa, senão morrer e reviver nesses pensamentos que é preciso sempre refazer? Somente, era preciso um pouco de tempo antes de contemplar a morte de Sócrates sob o aspecto do eterno. Por um acaso infeliz, que só foi infeliz um instante, Platão não assistiu Sócrates nessa morte. E essa morte, por essa ausência, começou a existir. Assim a ausência é julgada.

De resto, depois dessa pesquisa emocionante, e essa caça às sombras, é ainda Sócrates que nos tranquiliza, conduzindo esse passado e esse futuro a si.  Essa vida futura, é um risco a correr, e esse risco é belo; belo agora. É belo agora fazer como se se acreditasse e de se encantar a si mesmo. Ora, as razões por que isso é belo e por que aquele que se encanta disciplina como é preciso a imaginação, essa razões aparecerão de seguida. Mas é preciso agora procurar o que significa este encanto, e que género de ser ele faz ser. Todos os antigos chamam sombras, como Homero, a essas almas que já viveram e que não estão completamente mortas. Ora, pela Caverna, nós sabemos o que são sombras. Acontece que entre os mitos Platónicos, esse significa exactamente aquilo que nós somos, o que pensamos, e o que sabemos pela inteligência nesta vida presente. A evasão, já compreendemos, é apenas metáfora. As ideias são a verdade das sombras, e nelas. A imaginação é reduzida pelo outro sentido desta espantosa parábola, em que, porque cada termo material tem um sentido intelectual bem determinado, não fica nada para crer, senão que o pensar salva todo o crer. Assim não há nenhum risco. Não há nenhuma caverna, nem golilha; há apenas um homem que se desperta. É um outro mundo, e é sempre o mesmo mundo. Céu de ideias, ideias descendentes, e primeiro transcendentes, tudo isso são só metáforas; o lugar convém às sombras. O desvio matemático faz-se sem um movimento do sábio, apenas por uma recusa das sombras, e depois por uma reflexão sobre as sombras. Porque nada é falso nas sombras; nada é falso aqui a não ser o juízo do homem. Apresentar-se-á ainda um outro mito inteiramente verdadeiro, e que reconduzirá a esta vida todo o julgamento derradeiro, a esta vida a pena, e pela própria falta. Duas vezes teremos ouvido Platão sem possibilidade de erro. É o suficiente para que não nos enganemos com as suas outras imagens.

Reminiscência, vida anterior, vida futura,  Como é que Platão o entende? Ele entende-o, diria eu, como entende que as almas escolhem o seu embrulho, ou como entende que o cativo se evade. Não descubro a geometria; reencontro-a, reconheço-a; que significa? É que onde eu não a via, quando a compreendo sei que a via. Isso que me provais, eu sabia-o; isso era já verdade, aqui, diante de mim. O tempo é abolido. De resto, o tempo é abolido desde que se pensa o tempo; futuro, presente, passado, tudo junto. O passado não pode ser nada de passado. O que existiu, é o que eu tenho que pressupor para explicar o presente, um estado menos perfeito e mais perfeito ao mesmo tempo. Conjuntamente, a idade de oiro e a barbárie, o paraíso e a queda. Se eu reencontro a geometria, é que eu a sabia; mas, se a reencontro, é porque a tinha perdido. O tempo passado significa somente uma falta que eu não deveria ter cometido. Fora deste debate contra mim mesmo, não existe passado. Se as coisas envelhecessem, estariam mortas há muito tempo. Reparai aqui em qualquer coisa dessa natureza eternamente a mesma, por esta volta das estações grandes e pequenas. Esta volta é a imagem do eterno; e é por aí talvez que se pode começar a compreender o argumento dos contrários no Fédon, depois de o termos julgado impenetrável. Porque é quando o sol está em baixo que se anuncia que vai estar no alto; mas ainda bem melhor, nesta vida pensante, eu não encontro o tempo e a mudança a não ser por esta passagem do sono à vigília  e da vigília ao sono, que existe em todo o pensamento. Assim, é bem a reminiscência que prova a vida anterior, e é bem a vida anterior que prova a vida futura. Pensar isso, é pensar. De passado em passado, de futuro em futuro, o tempo desenrola as suas avenidas, muito inutilmente; é sempre a situação presente que é a verdade de todas as outras. É loucura pensar que um longo erro prepara para conhecer, e que uma longa falta faz amar a virtude. Em contrapartida, não há homem que não tenha algumas vezes formado esta ideia de que um belo momento vale por si só um longo tempo de vida sonolenta. De resto, longo tempo e curto tempo são apenas sombras na minha vida presente. Sob o aspecto da duração, a vida não seria, pois,  mais do que um sonho. Este pensamento ressoa em todo o lado em Platão.

Por oposição a este mundo dos que morrem, estimai pelo seu justo preço essa cintilante pintura do Timeu, outro sonho, mas cujo sentido rebenta quando se errou por muito tempo em caminhos crepusculares. Nestas ideias entrelaçadas segundo a sua lei,  nesta alma do mundo mexendo o caos e comunicando-lhe esses movimentos balanceados, em todas essas almas em baixo salvando esses mesmos movimentos contra a usura da pedra e da areia, nestes elementos mesmo que descobrem na sua desordem uma sabedoria fixada, cristalina, os pequenos triângulos, imagem da verdadeira geometria, neste grande edifício reconheço a minha morada, a ordem imensa à qual estou submetido, e que é ordem somente, por mim ou contra mim conforme eu quiser. Sem poder tomar à letra esta criação para sempre, reconheço nela essa grande ideia dum mundo razoável, sem nenhuma falta; e é sempre bem preciso  que eu reconheça que não existe erro nestas acções e reacções de coisas que são apenas coisas; assim, é preciso sempre que eu as nomeie  também ideias, como os pequenos triângulos mo fazem entender. Mas esta matéria perfeita e indiferente faz-me compreender também o que é razão abandonada e sabedoria que se confia ao futuro. Tudo isso o mesmo e sempre o mesmo. Porque, se a Atlântida revivesse, se a idade de oiro revivesse, se a república de Platão governasse todos os homens pelo melhor, não haveria por isso um átomo de virtude nas almas, e tudo estaria por fazer de instante em instante, temperança, coragem, justiça, sabedoria, sob a pressão da terra original, eternamente original. Sempre o homem terá de pôr de acordo esta cabeça redonda, em forma de céu, com o tórax fervente, lugar de cóleras, eterno lugar de cóleras, com o insaciável ventre, eterna fome. E este acordo nunca será nem cabeça, nem tórax, nem ventre; este acordo não será jamais coisa. As coisas fazem tudo o que podem, e tudo o que elas podem está já feito e refeito; assim, sempre outras, elas são outras, pode dizer-se, sempre da mesma maneira. O pé leva-nos impetuosamente; repelindo a terra pela sua forma; o ventre deseja pela sua forma; o coração ousa pela sua forma; e nada em tudo isso é um homem. Não te fies no que dura.







Alain
(Tradução de José Ames)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A CAVERNA

V


“… a fim de que passemos do sonho à realidade da vigília.”
             (O Político)


Se olharmos pelo rebordo uma roda que gira, e que tenha num dos seus pontos um sinal, parece-nos ver o sinal ir e vir, mais depressa no meio da sua corrida, menos depressa nas extremidades; e não poderemos compreender este movimento enquanto não soubermos o que ele é na realidade, quer dizer, o movimento duma roda. É mais ou menos assim que vemos o planeta Vénus ir e vir dum lado e do outro do sol; e esta aparência é inexplicável até ao dia em que supusermos um movimento deste planeta mais ou menos circular à volta do sol. Todavia, este movimento, cuja primeira aparência é como que a sombra ou a projecção do movimento, é ele mesmo de alguma maneira ilegível, enquanto não sabemos nele reencontrar  os movimentos mais simples, de que saibamos contar a velocidade. Estranha condição a nossa! Só conhecemos aparências, e uma não é mais verdadeira do que a outra; mas, se compreendemos o que é esta coisa que aparece, então por ela,  embora não apareça nunca,  todas as aparências são verdadeiras. Seja um cubo de madeira.  Que eu o veja ou o toque, pode-se dizer que lhe tomo uma vista, ou que lhe pego por um lado. Há milhares de aspectos diferentes dum mesmo cubo para os olhos, e nenhum deles é o cubo. Não existe centro  a partir do qual eu possa ver o cubo na sua verdade. Mas o discurso permite construir o cubo na sua verdade, donde explico de seguida facilmente todas as suas aparências, e provo mesmo que elas deviam aparecer como aparecem. Tudo é falso primeiro e eu acuso Deus; mas finalmente, tudo é verdadeiro e Deus está inocente. Permito-me estas observações, que não estão em Platão, mas que ele nos convida a fazer quando compara os nossos conhecimentos imediatos a sombras; porque toda a sombra é verdadeira; mas não se pode saber em que é que é verdadeira se não se conhece a coisa  de que é a sombra. Há uma infinidade de sombras do mesmo cubo, todas verdadeiras. Mas quem, reduzido à sombra, a isso limitado, poderá compreender que estas aparências são aparências dum mesmo ser? A sombra dum esquadro será algumas vezes uma linha delgada. A sombra dum ovo será algumas vezes redonda. É da mesma maneira que uma bola que se eleva no ar, ou um pedaço de cortiça que se eleva na água, parecem completamente diferentes duma pedra que cai. Melhor, a pedra que se eleva e a pedra que cai, não é o mesmo movimento uniforme que  continua, junto ao mesmo movimento acelerado que  continua? Estes exemplos eram mal conhecidos dos Antigos, e sem dúvida também de Platão. O milagre é aqui que não cheguem toda a nossa ciência, e mesmo as suas mais profundas subtilezas, se se quer inteiramente compreender a célebre alegoria da caverna. Retenhamos o exemplo fácil do cubo, deste cubo que nenhum olho viu nem verá nunca tal como é, mas pelo qual somente o olho pode ver um cubo, quer dizer reconhecê-lo sob as suas diversas aparências. E digamos ainda que, se eu vejo um cubo, e se compreendo o que vejo, não existem aqui dois mundos, nem duas vidas; mas é um único mundo e uma única vida. O verdadeiro cubo não está longe nem perto nem noutro lado; mas foi sempre ele que fez que este mundo visível seja verdadeiro e fosse sempre verdadeiro.

Pura obra duma causa eterna.

Estas notas preliminares fazem compreender o que é o erro. Platão compraz-se em mostrar, no Sofista, e no Teeteto, que ninguém pode pensar o falso, pois que o falso não é nada. Nestes dois diálogos, como em todos, ele não se apressa em concluir; e pode-se mesmo notar que esta dificuldade não o inquieta nada. É que todos os toques são indirectos, nestas obras que visam primeiro despertar-nos. E esta impossibilidade que o erro seja não tem mais efeito se se reúnem, como é preciso, as sombras e as ideias. Porque as ideias não mudam as sombras; mas antes pelas ideias se compreende que as sombras são verdadeiras, que não há nada a mudar nelas, e, para citar um grande dito de Hegel, que este mundo nos aparece justamente como deve. Mas é o sofista que falta ao mundo. É o sofista que não quer que a aparência seja verdadeira. Os graus do saber, para dizer de outra maneira, não estão entre os objectos, uns, que são ideias, mostrando-se como que acima dos outros. De facto, não falta nada aos outros, às aparências, a não ser a reflexão do espírito sobre o que nelas pensa. O sofista percebe um cubo como nós o percebemos; mas  não quer pensar que o pensa. Assim, procurando a ideia separada, não lhe encontra objecto; e, pensando o objecto separado, não encontra a ideia. Nada é para ele; tudo é falso. Mas nada é falso. Compreende-se que a salvação do nosso pensamento não está longe de nós. O mesmo se deverá dizer, em termos mais comoventes, da salvação da nossa alma. Mas que um longo desvio, e uma espécie de viagem através do discurso, sejam aqui necessários, deveríamos sabê-lo melhor do que Platão; e, pelo contrário, parece que o sol deste tempo feliz está cada dia mais longe de nós e mais estranho. Paciência; tudo será explicado, e pelo próprio Platão. Estes preliminares são para fazer esperar a mais fina, a mais acabada, a mais profunda das lições que o homem alguma vez recebeu do homem. Julgar-se-á se é dizer de mais.

Nós somos, pois, semelhantes a cativos, nós que recebemos aqui o verdadeiro à superfície dos nossos sentidos, a cativos que estariam encadeados, com as costas voltadas para a luz, e condenados a não ver senão a parede da caverna sobre a qual passam as sombras. E descrevamos primeiro este mundo dos cativos e esta vida dos cativos nesta caverna, supondo que eles falam entre si; e não esqueçamos também que estas sombras lhes trazem prazer, dor, doença, morte, cura. Apercebemo-nos que o maior interesse destes cativos é reconhecer estas sombras, prevê-las, anunciá-las. Em primeiro lugar chamarão objectos e mundo verdadeiro a estas sombras, porque não conhecem nada para além delas. E depois se alguns, por uma memória mais sensível, reparam em certos retornos e certas semelhanças, e assim anunciam o que vai acontecer, eles chamam sábios e chefes a esses homens. Não sem disputas; não sem enganos, pois bastará que um mesmo objecto seja tomado por um novo ser, cometa, eclipse. Donde, um grande tumulto nesta prisão, espécies de provas, dos desastrados e dos hábeis, uma glória e aclamações; enfim homens que terão razão, estranha maneira de dizer, pela recordação e os arquivos, como se sabe que os Egípcios anunciavam os eclipses sem saber o que era eclipse. Grande poder, mas pequeno saber. É preciso um longo desvio antes que se saiba o eclipse, por movimentos compostos. Compreendei no entanto que, nesta prisão, e entre estes homens atados pelo pescoço, e incapazes tão-só de voltar a cabeça para as coisas verdadeiras, haverá escolas, concursos, recompensas, níveis, triunfos. Que uns vivam segundo a primeira aparência, como esses selvagens que crêem que a lua está doente, enquanto que outros, inscrevendo melhor as aparições, e como  que numa cera mais fina, conhecerão os retornos e anunciarão o terror e a alegria. Haverá uma ciência nesta caverna e institutos. Haverá mesmo uma reflexão e uma crítica. Protágoras acabará por suspeitar que está encadeado como os outros, e prová-lo-á aos seus amigos; mas ele provará ao povo, pelos efeitos, que é uma admirável coisa o saber. Sigamos a ideia; tornemo-la familiar. Haverá uma espécie de justiça nesta caverna, e uma espécie de injustiça, pela opiniões úteis ou prejudiciais; meter-se-ão sem dúvida na prisão alguns destes prisioneiros, porque terão  previsto mal o retorno das sombras.

Aqui aparecem os graus do saber. Porque estes cativos viverão quase todos segundo a natureza, quer dizer deixar-se-ão levar pelos movimentos de precaução que provoca toda a aparência, mesmo nova; dispor-se-ão como de instinto para agarrar ou para repelir, e tal será o seu pensamento. Eis o verosímil, que é o mais baixo grau do saber, e o mais baixo grau também da opinião. Mas os sofistas, nesta caverna, julgarão por mais longa memória e mesmo pelos arquivos comuns; assim perderão menos das suas forças a temer e a esperar; agirão segundo o costume, segundo o crer; e estes dois graus compõem em conjunto esse conhecimento dos cativos, que se chama opinião. E que possa existir uma opinião verdadeira, é o que é evidente,  neste sentido, que aqueles que anunciam o eclipse, conforme os arquivos egípcios, anunciam tão exactamente como aqueles que sabem o que é eclipse segundo a lei e a prova. Acima, estende-se a ciência; e já se entreviu dois graus também neste saber. Porque, aquele que compreende a prova do geómetra, está ainda muito longe de ter reflectido sobre a diferença que há entre saber e  opinião verdadeira; ele não sabe ainda o que é a ideia: ainda menos o que é  pensamento. Todavia os cativos não formarão de modo nenhum esta ciência pela sua experiência; e a razão é que a sua experiência lhes basta, como se diz que a geometria empírica bastava aos Egípcios. Será preciso então qualquer acontecimento de espírito, alguma ruptura neste costume, e a ideia espantosa de não olhar mais as sombras, mas de olhar em si. Tal é a evasão.

Portanto, eu liberto um deles; arrasto-o a meio do dia. Ele vê o fogo; vê os objectos cujas sombras eram as sombras; vê todo o universo real, e o próprio sol, pai dos fogos e das sombras. Mas admirai. Ele primeiro tapa os olhos; grita que já não vê  nada; quer voltar à sua querida caverna, e reencontrar as suas caras verdades, e essa penumbra a que chamava razão. Entretanto, amanso-o poupando os seus olhos. Faço-lhe ver as coisas ao crepúsculo, ou então no reflexo das águas, onde as claridades são menos ofensivas. E depois ei-lo suficientemente forte para contemplar os próprios objectos, em plena luz do sol. Como ele tem pressa  de voltar à caverna, onde sem dúvida será rei, pois que agora sabe  de que é que as sombras são feitas! Mas Platão puxa ainda por ele e educa-o, até que possa contemplar pelo menos um momento o próprio sol. Só então tu serás rei, para o bem de todos e para o teu próprio bem.

Transponhamos. As sombras da caverna, são as aparências na parede dos nossos sentidos. Os próprios objectos, são essas formas verdadeiras, como o cubo que nenhum olho viu; são ideias. Esta libertação faz-se pelo discurso. Estes reflexos menos difíceis de apreender, para um olhar menos acostumado; são essas figuras desenhadas segundo a ideia, e que sustentam o discurso do geómetra. Os objectos do mundo real, são as relações inteligíveis que dão um sentido às aparências, mas cuja aparência, ao contrário, não pode fornecer o segredo. Esta viagem do cativo liberto, é o desvio matemático, não somente através  de reflexos ou figuras, que são ainda espécies de sombras, mas até essas relações sem corpo que só o discurso pode apreender, até a essas simples, nuas e vazias funções que são o segredo de tantas aparências e que  estão cheias de tantas criações; até essa pura lógica, deserta para os sentidos, rica de entendimento; admirável para o coração, pois que o homem não se sustém senão por esta única preocupação de pensar bem, sem outro ganho. Mas o sol? É o próprio Bem, que não é ideia, que está de tal modo acima da ideia, tão mais precioso    do que a ideia! E da mesma maneira que o sol sensível, não somente faz que as coisas sejam vistas, mas ainda alimenta e faz crescer todas as coisas e as faz ser, igualmente o Bem, sol desse outro mundo, não é somente o que faz que as ideias sejam conhecidas, mas também o que as faz ser. E certamente aquele que tiver contemplado um pouco as ideias, se voltar à caverna, saberá já predizer milagrosamente; será chamado rei; não será no entanto um rei suficiente, porque não terá contemplado o Bem.

Aqui se erguem interpretações piedosas e belas, perante as quais é preciso primeiro que nos detenhamos. Fez-se em muitos homens como que um reflexo de Platão, que já e suficientemente belo. E a fim de imitar um pouco a prudência platónica, e de aliviar a atenção, desenvolvamos em primeiro lugar uma ideia bastante fácil. Pode ser que ao homem que sabe agrade agora esse outro mundo; pode ser que sejamos forçados a arrastá-lo de novo para a caverna. Pode ser que, de novo encadeado, ele não saiba de princípio discernir as sombras, e que primeiro seja ridículo, entre os cativos que há tanto tempo sabem  tão bem tudo o que um cativo pode saber. Ele quererá, pois, mais uma vez evadir-se; mas é o que não se deve permitir, senão até ao ponto em que seja útil para rever as ideias e não as esquecer. É assim que os chefes, depois duma guerra, depois dum cruzeiro, depois de alguns anos de administração, deveriam voltar à escola, ou antes ao mosteiro de meditação, mas não para ali se encerrarem para sempre. É dizer que o homem deve voltar, e instruir e governar, e ao mesmo tempo instruir-se e governar-se. Compreendamos que nesta caverna, entre estes cativos, e a canga no pescoço, é a vida verdadeira, e que não há outra.  Ou melhor, é esta vida que deve ser a outra vida e a verdadeira vida. Platão distingue-se, pela poesia que lhe é própria, em reunir e dispersar as ideias e as sombras como que num palco eterno, fazendo aparecer, em cada volta de pensamento e de paixão, um clarão de paraíso sobre uma caravana de sombras miseráveis. E tudo isso  junto tem justamente a cor do nosso pensamento real. Porque o que é viver, ó crepúsculo? Mas também o que é pensar? Aqui talvez o sentido das religiões; e toda a Divina Comédia está no menor dos nossos pensamentos. Todavia, pois que é preciso que o severo entendimento circunscreva esta metáfora, e a salve a ela mesma de morrer, foi por isso que escrevi um tão longo preâmbulo; porque é preciso saber que não há nada de falso nas sombras, desde que aí se vejam as ideias; e é este mundo que é o mais belo e o mais verdadeiro, e, bem melhor, que é o único. O sábio é aquele que salva até as suas sombras, e a sua própria sombra. Mas os homens mantêm-se raramente no seu posto de homem. Alguns refugiam-se  nas ideias puras e no mosteiro de espírito; os outros voltam demasiado cedo à acção como num sonho em que o verdadeiro não é mais do que recordação. Quero agora contar uma história verdadeira. Não há quarenta anos, os marinheiros de Groix sabiam perfeitamente ir a La Rochelle. Por que acaso tinham eles sabido o ângulo de rota que era preciso seguir? Não obstante, tinham essa opinião verdadeira. E, uma vez chegados a La Rochelle, seguiam os outros pescadores até a um banco conhecido e famoso: mas nenhum deles teve nunca a ideia de que um outro ângulo de rota os  levaria directamente ao lugar da pesca. Perante isto, institui-se uma escola de pesca, e ensina-se aos rapazinhos, por geometria empírica, por reflexos de ideias, a arte de encontrar a rota e de fazer o ponto. Nas férias, todos os grumetes foram à pesca com os seus pais, e experimentaram os seus talentos. Os resultados pareceram tão maravilhosos que mais de um pai quis ficar com o seu filho, como um sábio piloto, e que mais de um filho se entusiasmou por exercer esse novo poder, em vez de voltar à escola de pesca, aos cálculos, às lições. E, ao contrário, pode imaginar-se que a mais dotada destas crianças foi de escola em escola, dando lição de ideia depois de a ter recebido, e desprezando agora a pesca e a navegação. Assim Platão disse bem que era preciso suplicar ao sábio e mesmo forçá-lo, se esquecer os seus companheiros.

Fica por explicar esse Bem, que não é uma ideia, e que é a fonte das ideias. Pode entender-se que é muito pouco saber, se não se propõe, seja em saber, seja nas acções que o saber torna possíveis, algum fim superior; e que, enfim, é  só a vontade boa que dá importância e valor às ideias. De resto, pois que esse Bem ou esse Perfeito é o mais ser dos seres, admite-se sem dificuldade que é ele que faz ser as ideias, como também todos os seres pensantes e todas as coisas.

A respeito desta teologia, que cobriu uma parte do mundo, é preciso reconhecer que Platão disse, aqui e ali, de que alimentar séculos de pensamento místico, por exemplo, no Teeteto, que o trabalho do sábio é imitar a Deus. Não menosprezo esta sabedoria; e concordo que  está duma certa maneira em Platão; só que ela recobre uma outra, bem mais premente, bem mais positiva, bem mais perto de nós. E, embora a mística cristã ofereça profundidades mais do que metafóricas, não tenho a opinião que ela tenha tocado no mais íntimo do nosso bem e do nosso mal, como Platão o fez. Isso aparecerá, espero-o, suficientemente a seguir. Mas a partir de agora devemos notar isto, que falta muito à ciência, e mesmo tudo, se, remontando essa estrada da inteligência que vai das coisas às ideias, ela não capta um bem substancial às ideias, da mesma ordem  que elas, embora em valor as ultrapasse infinitamente. Toda a imaginação ultrapassada, esta condição deve aparecer no problema positivo do conhecimento humano; donde se elevará a fé dos incrédulos, que é a mais bela. E eis como a compreendo.

As nossas ideias, por exemplo de matemática, de física, são verdadeiras em dois sentidos. Elas são verdadeiras pelo sucesso; dão poder neste mundo de aparências. Fazem-nos nele senhores, seja na arte de anunciar, seja na arte de modificar segundo as nossas necessidades essas temíveis sombras no meio das quais estamos lançados. Mas, se se compreendeu bem por que caminhos se faz o desvio matemático, falta muito para que esta relação ao objecto seja a regra suficiente do bem pensar. A prova segundo Euclides nunca é de experiência; nem o quer ser. O que faz a nossa geometria, a nossa aritmética, a nossa análise, não é primeiramente que elas estejam de acordo com a nossa experiência, mas é que o nosso espírito esteja de acordo consigo mesmo, segundo esta ordem do simples ao complexo, que quer que as primeiras definições, sempre mantidas, comandem toda a sequência dos nossos pensamentos. E é o que espanta de início o discípulo, que o que se deve primeiro  compreender não seja nunca o mais urgente nem o mais vantajoso. A experiência tinha feito descobrir o que é preciso de cálculo e de geometria para viver, muito antes da reflexão se ter posto à procura  dessas provas subtis que recusam o mais possível a experiência, e iluminam essa ordem segundo o espírito, que quer bastar-se a ele mesmo. É preciso mesmo dizer que este género de pesquisas não visa primeiro essa verdade que o mundo confirma, mas uma verdade mais pura, toda de espírito, ou que se esforça por ser bela. E que depende do bem pensar.

Encontrarei um exemplo simples nesse movimento de reflexão que marcou os últimos anos do século XIX. O ilustre Poincaré foi levado a dizer uma palavra sobre isso, justamente a respeito duma prova bem conhecida desta proposição, que se pode inverter a ordem dos factores sem mudar o produto. Esta prova para os olhos, que consiste em propor pontos bem alinhados, por exemplo, quatro filas de três pontos cada uma, afasta toda a espécie de dúvida, parece, por este género de experiência que se chama intuição. Mas Poincaré lembrou que a ciência rigorosa recusa esta prova, remontando da  multiplicação à adição, e ainda dos números à unidade, para recompor em seguida e por graus a proposição de que se trata, através de várias páginas de transformações bastante difíceis de seguir. Este exemplo é apropriado a fazer ver que um espírito escrupuloso sabe  ainda duvidar do que não oferece dúvidas, e tomar o caminho mais longo como Platão gosta de dizer. Não basta pois que uma proposição seja verdadeira segundo a coisa; é preciso que seja verdadeira ainda segundo o espírito. E, em resumo, aqui se mostra a regra do bem pensar, que repousa sobre ela mesma. Isso quer dizer que há um dever de bem pensar, aconteça o que acontecer. O espírito é aqui o seu próprio fim e o seu próprio bem.

Platão, em A República, explica-se o suficiente sobre isso; trata-se somente de pensar aquilo que se diz. Pode-se ir em dois sentidos, através das ideias. Pode-se descer da hipótese às consequências, tomando a hipótese como verdadeira; caminha-se então para a experiência e as aplicações; mas pode-se e até se deve, se se pretende a honra de pensar, subir, ao contrário, de hipótese em hipótese, até ao que é primeiro e categórico. É ver ou entrever, ou pelo menos suspeitar o espírito, fonte das ideias, e esta maneira de provar que só a si próprio deve. Apenas aquele que para  aí se orientou conhece as provas como provas. E o que é então Protágoras? Não é um ignorante; suporemos mesmo que  sabe enquanto homem do mundo. Só que ele não sabe que é espírito. Os olhos sempre voltados para este reino inferior que lhe é prometido,  considera somente em que é que as ideias se aplicam à experiência; facilmente desliza em tomar por uma hipótese simplesmente cómoda o que concorda com a lei do espírito. Tendo deixado perder-se este lado do verdadeiro, perde também o outro, dizendo que só há ideias úteis ou prejudiciais, e não ideias verdadeiras ou falsas. E, uma vez que não se deve dizer ao povo que não existe nem verdadeiro nem falso, porque não haveria então nem justo nem injusto, ei-lo que se acomoda ao mesmo tempo com a média e a baixa opinião, traindo duas vezes o seu próprio pensamento no menor dos seus discursos.  É salvar o seu corpo e perder o seu espírito; isso por não ter apercebido o Bem para lá das ideias. E o que é preciso sobretudo notar, é que este género de espírito não pára nunca de descer, por essa falta das faltas que consiste em rebaixar o espírito ao nível de meio; o que, de mil maneiras, e por diversos caminhos, conduz o político a este nível em que sempre o vemos. É do verdadeiro como do justo. Se não fordes justo pelo princípio, não sereis justo de todo. Se desprezais a verdadeira prova, não sois de todo espírito. Tal é a história espantosa das nossas quedas; e a mitologia só acrescenta  metáforas a isto.

Alain
(Tradução de José Ames)