sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AS IDEIAS

IV


“…porque para os incorporais, que são o que há de mais belo e de mais grande, só se mostram pelo discurso, e não se mostram claramente por nenhum outro meio.”
             (O Político)



No Hípias Maior, jogo terrestre em que Sócrates se debate na aparência com um personagem bem tolo, ou melhor com impenetráveis exemplos, e na realidade com o seu próprio espírito, o que faz dois diálogos num, mostra-se no fim uma forte e espantosa distinção. Há, diz Sócrates, ideias que são tais que ambos nelas convimos e delas somos um exemplo, mas que não convêm a um de nós, nem ao outro, como a ideia de que somos dois. Porque em conjunto somos dois, mas esta propriedade de ser dois não se divide; nenhum de nós a possui; e não é pois  para dizer verdade uma propriedade. Juntemos outros exemplos  a este. Outros exemplos que aparecem aqui e ali em outros diálogos, a fim de se esgotar, se pudermos, o sentido desse precioso comentário, ainda novo agora. O grande e o pequeno não são também eles maneiras de ser que se possam relacionar com um sujeito; sem o que seria preciso dizer que Sócrates, comparado a maior do que ele, e depois a mais pequeno do que ele, se tornou mais pequeno, e depois maior, sem nenhuma mudança. Estranha conclusão. De tal maneira que nos riríamos daquele que quisesse pensar o grande em si, e o pequeno em si. Não há pequeno que não deva logo ser dito grande, nem de grande que não seja ao mesmo tempo pequeno. Estas qualificações lançam-nos imediatamente fora delas mesmas, e passam ao seu contrário. É a mesma coisa com o agudo e o grave, o leve e o pesado, o frio e o quente, o rápido e o lento. São atributos que não pertencem propriamente a nenhum ser, e bem melhor, que não  pertencem a si mesmos. Realmente não penso que uma coisa esteja fria se não penso ao mesmo tempo que  está quente, e assim do resto. Semelhantemente, poderíamos dizer de Sócrates e de Hípias, que esta propriedade que cada um tem de ser o mesmo que ele próprio e diferente do outro só pertence aos dois. Em cada um deles, e como ligada a ele, pereceria; porque é apenas em relação ao outro que eu sou diferente do outro; e, olhando de mais perto, é ainda em relação ao outro que eu sou o mesmo que eu próprio.

Não acabámos de desenvolver e de pôr em ordem estas relações de oposição, que são também de correlação. Não acabámos. Platão, que não cessa de tecer as nossas vidas futuras, mas que se guarda também de as acabar, lança-nos sem socorro nestas aventuras, que estão já perto da terra, eu diria mesmo que  dela se aproximam, que descem, porque é esse o movimento platónico. Mas, deixando ainda essa questão, voltemos ao nosso Hípias Maior, e ao outro exemplo, que parece feito para nos reconduzir. A beleza é de facto uma ideia comum a duas coisas belas, e que convém a ambas; todavia, ela convém também a cada uma delas; ela divide-se num sentido, mas cada coisa possui-a inteira. Esta outra claridade só brilha um momento. Sócrates despede-se. Silêncio. Agora é-nos permitido alojar um pensamento nesse oco assim preparado. Cada um sabe que a beleza dum templo não pertence, no entanto, às partes do templo, nem às partes destas partes. A poeira do Parténon não é bela. As parcelas de oiro e de marfim não reteriam a beleza da estátua criselefantina. Mais adiante, e perseguindo estas ideias de virtude, que Sócrates buscava, e de que ele se aproximava algumas vezes, sem talvez saber  que as procurava, digamos que a ideia da temperança só pode convir a um homem dividido, partilhado entre aquilo que deseja e o que regulamenta, sem esquecer o que faz, e que muitas vezes se empolga. E justiça como, sem uma relação e uma harmonia no homem entre o que cobiça, o que faz, e o que mede? De tal modo, que podíamos bem dizer que a justiça encerra o seu contrário, e que a temperança encerra o seu contrário; igualmente que elas são comuns às partes do homem tomadas em conjunto, mas que não convêm a nenhuma das suas partes; porque não é a cobiça que é justa, nem a cólera que é temperante; e digamos mesmo que não é a razão que é justa, nem a razão que é temperante. Que Platão tenha pensado assim, isso não deixa dúvidas desde que se leu A República. Assim,  nem a virtude, nem a beleza encontrarão seres aos quais sejam inerentes, quero dizer seres que as possuam em cada uma das suas partes. E é verdadeiro dizer-se, seguindo o movimento do Hípias Maior, que a razão, a cólera e o desejo podem ser temperantes tomados em conjunto, mas não o são por cada um. O mesmo para a justiça, que é o atributo dum todo, mas não convém às partes separadas. A cólera não é mais justa sozinha que um dos cinco ossículos é cinco. Assim, a ideia de justiça, ou de beleza, que à primeira vista reúne todos os seres justos, ou todas as coisas belas, reúne ainda, mas duma maneira completamente diferente, as forças do ser justo, ou as partes da coisa bela, desta vez sem convir às partes. E esta observação aproxima-nos dos nossos verdadeiros pensamentos; porque é bem preciso, como dirá Aristóteles, que a justiça de Sócrates seja própria de si, mas não pode ser, e Platão não cessa de no-lo fazer entender, que ela se separa dele, como o cinco se separa dos cinco ossículos. Separável; inseparável.

Aristóteles, que iria pôr de pé a doutrina da inerência, meditou sobre este ponto pelo menos uma vintena de anos, antes de tomar partido. Pelas análises platónicas, de que o leitor forma agora alguma noção, é claro que a ideia se separa. Ela separa-se, porque não se pode representá-la  desdobrada sobre a coisa, e parte contra parte. O cinco não é inerente aos ossículos. Mas a ideia junta-se aqui à coisa, bem mais estreitamente do que o faria um modelo, por isto que a mesma relação exprime tanto quanto se queira as diferenças, como os matemáticos o sabem bem. Uma fórmula não é somente comum a todos os problemas que permite resolver; é apropriada também para cada um deles. Por exemplo, todas as variedades possíveis na velocidade de vários corredores, no sentido dos seus movimentos, no tempo e no lugar dos seus encontros, uma única fórmula os pode exprimir. É por isso que, dizendo que as fórmulas são gerais, não se diz tudo, só se lhes empresta a identidade imóvel da ideia do leão, comum a todos os leões. Uma tal ideia assemelha-se à coisa; ela mesma é uma espécie de coisa; é semelhante a outras ideias, diferente de outras ideias; forma com todas as outras ideias um outro mundo de existências que devemos chamar de imaginárias, e que, pelo mesmo raciocínio supõe um outro e um outro, e assim sem fim. De qualquer modo, pela relação exterior que a imaginação arrasta consigo, estas ideias separam-se e voam até; elas estão algures lá em cima; são transcendentes. Atenção aqui. A metáfora está quase em todo o lado em Platão; ela arrasta, eleva o leitor, estende e alarga o mundo; lança-nos nele, aí nos passeia, como numa pátria que convém às nossas naturezas compostas. Mas espero mostrar também que a metáfora é sempre tal, neste poeta da poesia, que ela não pode nunca enganar-nos, e que, como a parábola evangélica, nos remete invencivelmente para uma ideia, mas uma ideia que está diante de nós, na própria metáfora. Estou seguro de que Platão superou estas ideias que são objectos, e que pelo menos entreviu, e é dizer pouco, essas outras ideias que são as ideias e que a imaginação não pode apreender.

A doutrina de Platão trazia mais futuro do que qualquer outra; e sem dúvida é mais fácil hoje compreender Platão do que alguma vez o foi. A fórmula, que nos é agora familiar, dá à ideia uma espécie de corpo liberto de semelhança, e que deixa melhor adivinhar a ideia do que o faz a figura geométrica, rosto ambíguo. Mas, por outro lado, a figura geométrica é para nós uma prova mais severa, e que poucos ultrapassam, porque é mais agradável  ver a geometria do que compreendê-la. E todas as dificuldades, ou antes as facilidades, que se encontram em Descartes e em Spinoza, resultam de que não se superou a prova que é própria do geómetra. Ora, sobre isso, no sexto livro de A República, Platão disse o que era preciso dizer, e melhor do que ninguém. A figura geométrica é só um reflexo, uma imagem da ideia. O olho percebe-a, e desta percepção o espírito recebe um certo socorro, como de polícia, em relação à parte espessa e violenta da nossa natureza. Mas, ao mesmo tempo que percebe a imagem, o geómetra presta continuamente atenção a isto, que a imagem não é a ideia. Do que as demonstrações elas mesmas testemunham, que são, como Spinoza o dirá, justamente os olhos da alma, pelos quais conhece as coisas. Por isso as demonstrações vão muito além da figura, apreendendo no triângulo esta relação indivisível dos ângulos, que está acima dos seus valores, e que explica antecipadamente, na sua totalidade, uma variedade ilimitada de valores e de figuras. Mas a demonstração significa exactamente isto, que é vão esperar ver a ideia, e que é preciso compreendê-la.

Tactearemos sempre, e sem dúvida inutilmente, em busca duma intuição intelectual. Esta metáfora, tirada da visão, traz com ela, não certamente cores e formas, mas a noção dum objecto que subsiste e que se oferece. Em vez do que o compreender não nos instrui senão por um movimento e um progresso. Não é então um objecto que o pensamento descobre, mas a si mesmo que descobre, numa passagem, numa sequência de passagens, numa libertação, numa sucessão de momentos superados. Pode muito bem ser que este movimento de pensamento seja o todo da ideia, e que não haja nenhum objecto intelectual, ou, se se quiser, de existência, de dado, que mereça o nome de ideia. E quando se diz, como bom discípulo de Kant, que a dialéctica não fará nunca existir um objecto, talvez muito bem se realce, e segundo a doutrina platónica, a distinção entre ideia e objecto. E é o que o triângulo e o número deveriam ensinar-nos, mas o ídolo querido é a ideia existente, e apreendida como pelos olhos. A ideia, tal como Platão o disse e redisse, é somente apreendida através duma sequência de discurso, que é dialéctica; dialéctica, é encadeamento de proposições. A dialéctica geométrica é apenas incompleta, pela hipótese, filha de natureza, que nos propõe algum acaso do mundo. Da mesma maneira, se faria compreender que o número cinco não é, também ele, senão um reflexo da ideia, em cinco ossículos, em cinco bois, em cinco pontos. Agora, esta ideia é cinco? A ideia de dois é dois? Mas não é antes comum a tudo o que é par? Melhor, não há uma lei dos números que é a ideia de todo o número? É verdade que aqui não vamos longe, pois que a sequência dos números primos, depois de tantas pesquisas, é ainda um simples facto para quase todos, e talvez para todos. Vê-se esta sequência, não se compreende. Todavia quem ousaria sustentar que ninguém a compreenderá jamais, que não se pode compreendê-la? Platão é único por este movimento para além do visível, mesmo sem meio e sem objecto. Platão estava longe de saber o que sabem os nossos doutores. De qualquer modo, Aristóteles relata-nos que ele considerava os números como intermediários entre as coisas e as ideias. Platão tinha portanto a experiência desta reflexão intrépida, que sempre ultrapassa, que sempre depõe no objecto, mesmo abstracto, este estatuto de ideia ao qual pretende sempre, pela nossa natureza misturada de terra. E pois que este retorno à opinião verdadeira, esta descida, esta queda de compreender no ver, é o nosso lote, o outro movimento, por muito difícil que seja, e muitas vezes sem meios, como eu dizia em relação aos números, é no entanto o movimento verdadeiro. Como dizia um matemático: “Nós largamos o lastro; mas não nos podemos largar a nós mesmos.” Neste movimento se contém talvez toda a doutrina da ideia. Platão, nos seus Diálogos, encontrou divinamente aquilo de que precisamos, por essa admirável insuficiência que os seus mitos nos lançam à cara.

Se se pergunta agora qual é a ordem verdadeira, não nos seus reflexos que são as noções matemáticas, mas nas ideias impalpáveis, invisíveis, sem corpo, inacessíveis a quase todos e talvez a todos, pergunta-se, parece-me, mais do que o homem pode tentar. Pode muito bem ser, que nas suas lições orais, um Platão pitagorizante  tenha arriscado algum sistema dialéctico pelo um e pelo dois. O que fez humor a Aristóteles; mas convenhamos no entanto que o humor de Aristóteles perante a doutrina platónica é qualquer coisa de inexplicável; porque a presença do homem, o tom, o gesto deviam obter indulgência nas mais ousadas antecipações. Em contrapartida, como Platão ele mesmo nos advertiu, as obras escritas são demasiado sólidas, demasiado objecto, demasiado abandonadas; é preciso nelas medir melhor aquilo que se sabe, o que se supõe, o que se quer; é preciso nelas fixar, se isso é possível,  algo desse discurso falado, mutável, fluido, e que sempre se vai corrigindo e devorando a si mesmo. E, porque Platão reuniu nos seus escritos justamente o que é preciso de esperança, de fé, de dúvida, para elevar os nossos fracos pensamentos, o chamaram de divino,  e chamaram bem. Mas que dizer enfim, segundo as suas obras, desse sistema de ideias que ele esboçava, que entrevia, que suspeitava?

Colocando no ápice o um e o dois, conforme o testemunho de Aristóteles, era preciso juntar-lhe o ser e o não-ser, o determinado e o indefinido, o repouso e o movimento. São, como se compreendeu, relações e co-relações, as mais abstractas que podem ser, e que, pela própria distância a que se encontram dessas relações que nós pensamos nas coisas particulares, como o eclipse ou o curso dos planetas, são para nos lembrar uma extensão de ideias entre a fonte pura e o lugar das aplicações. Sem dúvida as severas análises do Sofista, que é como uma reflexão sobre o Parménides, têm por fim separar-nos para sempre dessa opinião de que as ideias são seres. De qualquer modo, uma dedução propriamente falando, uma sequência verdadeira dessas formas abstractas, falta inteiramente no Sofista, e também no Filebo, em que se mostram segundo uma outra ordem, e enfim não se encontra em nenhum outro diálogo. Quanto a uma visão directa sobre a aplicação dessas ideias à experiência, e sobre o que poderia ser a experiência sem elas, vejo a comentar sobretudo, com a movente análise do Filebo, uma passagem do Político, quase perdida, mas sem dúvida de propósito, neste diálogo enigmático, onde, ainda mais do que no Sofista, parece que Platão quer definir o personagem exterior pelos meios exteriores, o que transviaria completamente os verdadeiros meios de fixar a experiência nos nossos pensamentos. Devo dizer aqui de passagem o que acabei por crer destes dois diálogos desesperantes, é que este sofista e este político representam dois graus da opinião, e determinados pelos dois graus da opinião, o primeiro, homem de aparência, e o segundo, homem de experiência. Mas está aqui um melhor objecto; eis só a natureza sem o vinco do costume. Eis o agudo e o grave correndo através dos sons, como correm noutras experiências o quente e o frio, o rápido e o lento, o grande e o pequeno, cada um reencontrando no entanto o seu contrário ao seu lado, e o seu contrário em si mesmo. Aqui, e tão longe quanto possível formas incorruptíveis, aqui, nesta parte da experiência que é o mais experiência, é ainda a ideia que traz o mundo. Porque a diversidade sensível toma logo a forma do dois, ou como se diz, da díade, e logo este dois foge numa fuga já não  Heraclitiana, mas que é melhor, pois que faz comparecer todo o universo dos graus, e toda a qualidade possível numa qualidade. Aqui a própria ideia da mudança, fixada pelo seu contrário, a medida. Heraclito guardava a recta razão como testemunha da mudança, mas fora da mudança. Este espírito desfaz; não faz nada. Platão deixa-nos aqui entrever as formas do espírito no tecido mesmo da experiência, e criando propriamente falando a aparência do mundo, segundo a bela palavra de Anaxágoras citada no Fédon: “ No começo tudo estava junto; mas veio o espírito, que pôs tudo em ordem.”

Em resumo, que seria o mundo sem as ideias? Não somente não seria compreendido; mas é dizer pouco; não seria nada; nem sequer apareceria. Nesse fluxo indefinido, é o limitado que  faz aparecer a coisa. E observai como é Heráclito ele próprio que se muda em Platão, como Zenão também, que negava o movimento; mas é talvez aqui o único caso em que, segundo a coragem socrática, o adversário foi pensado conforme a boa fé. Neste quadro sumário das formas mais abstractas encontra-se o movimento ao nível do repouso. Foi preciso Heráclito e Zenão em conjunto em Platão para surpreender a ideia no espectáculo mesmo, e o imóvel no movimento. Porque é bastante claro, por esta dupla negação, que o movimento não está nas coisas; mas o movimento é antes a mudança pensada segundo o mesmo, e pela medida. Dizendo somente, e de passagem, que o movimento é uma ideia, Platão diz muito; porque é verdade que nós pensamos o movimento como um todo, e como um modelo da mudança, que a mudança não nos dita; um modelo segundo o espírito, não segundo a coisa. Basta a Platão advertir-nos; não entra nos seus fins dar-nos o saber, porque, batendo assim na nossa couraça mortal, ele visa uma outra salvação mais preciosa do que o saber. O facto é que nós não vemos primeiro a ideia na coisa, embora a ideia ali esteja; e o conhecimento pelos sentidos não é o conhecimento verdadeiro. Se as ideias formam a própria trama da experiência, como é que o homem pode ignorar isso tão facilmente? As ideias não estão longe; não estão noutro lado; estão diante de nós. Não existe uma qualidade, o vermelho, o quente, o lento, que não seja pensada a mesma, embora não o seja. Não há qualidade que não seja pensada  por uma outra, pela outra. Não há contrário que não seja pensado pelo seu contrário. O número não está nas coisas; a grandeza não está nas coisas; o movimento não está nas coisas; bem melhor, a própria qualidade  não está nas coisas. Mas isso não significa que alguns vejam apenas as coisas, e que outros conheçam também as ideias; porque as coisas sem as ideias, são tão impossíveis como as sombras sem as coisas de que são as sombras. A inerência, decerto, é superada; a ideia do grande e do pequeno não está em Sócrates nem em Teeteto quando julgo que  um é maior do que outro; e a ideia de movimento não está nem no móvel, nem na testemunha imóvel em relação à qual o móvel se move.  Todavia, este mundo Heraclitiano, onde só existe mudança pura e simples sem nenhum movimento, em que a coisa não é grande nem pequena, nem quente nem fria, nunca ninguém o viu. A ideia só aparece pelas ideias. Só que essas ideias estão como que perdidas, irreconhecíveis na aparência sensível. Em vão arregalamos os olhos. O facto é que nós pensamos, e que não sabemos nada sobre isso. Ele faz um longo desvio antes que possamos pensar explicitamente a ideia na coisa, e, por exemplo, o que mais importa, a ideia do homem no homem. E talvez, insisto de novo depois de tantas análises concordantes, que batem sempre nisso, talvez todo o erro consista em crer que o modelo do homem se parece com o homem. A doutrina da justiça, tal qual se encontra em A República, é ininteligível enquanto se procurar a justiça fora de tal homem, e como que num homem mais perfeito do que ele. Porque a cada um a sua justiça, mas no entanto justiça universal. Há pois um segredo, ainda mais escondido hoje, mesmo para aqueles que o surpreenderam. Platão tem muitos discípulos, mas é novo. É arriscado, quase desconhecido, e isso foge mesmo àquele que o sabe, ensinar de acordo com Platão. É que Platão não deixou o seu segredo, mas antes um outro enigma, o mais belo do mundo; e é aí que estamos.



Alain
(Tradução de José Ames)

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