quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O HOMEM




“A minha segunda máxima era de ser o mais firme e o mais resoluto nas minhas acções tanto quanto pudesse.”


(Discurso do Método)



O homem é de uma bela época, que não aprendeu ainda a obediência. A ordem não está feita. Em toda  a Europa, é como uma imensa guerra civil onde cada um se bate por sua conta; e mesmo a matemática se assemelha a  uma guerra de partidários, em que os mais hábeis tentam alguma estocada secreta. Todo o homem é de espada  e de cometimento, e escolhe o seu senhor. Ninguém encontra então diante de si esses deveres preto no branco escritos, que fazem das nossas paixões sabedoria. É preciso tomar partido. Descartes participa nesse movimento, que não o surpreende. Este viajante, este militar, este homem de mão não nos é de todo conhecido; mas o que sabemos da sua vida, embora puramente exterior, e sem nenhuma vista sobre os movimentos secretos, não nos permite esquecê-lo. Sabemos que serviu como voluntário sob Maurício de Nassau, em breve príncipe de Orange; que depois de dois anos  passou ao exército do duque da Baviera; dois anos mais tarde, reencontramo-lo sob as ordens  do conde de Bucquoy que verosimilmente seguiu até à Hungria. Enfim, depois de seis ou sete anos de viagens livres, encontra-se como espectador no cerco de La Rochelle, e aí retoma o serviço no exército do rei até à vitória. Eis pelo menos a lenda, tal como a encontramos em Baillet. Há muita incerteza nestes detalhes, e  os historiadores rejeitam mesmo o último episódio, provando que Descartes acabava de chegar à Holanda no momento em que La Rochelle foi tomada. Todavia, é preciso dizer que este episódio não teria sido inventado nem crido se não estivesse de acordo com o personagem; e, desde que se queira conhecer o carácter, os hábitos e os movimentos dum homem, a lenda não é de desprezar.

Não se trata aqui, portanto, dum mole letrado, mas dum homem vivo e duro, impaciente por deliberar, que decide, que corta, que se arrisca. Por muito lentas que tenham sido as guerras nesse tempo, e por muito tempo que deixassem à curiosidade, e tempo à reflexão, eram em momentos bastante brutais. Nós não sabemos nada de Descartes combatente, a não ser que a tradição  dele nos reporta dois movimentos assaz militares. Sabe-se que Descartes, passando na Frísia Ocidental num barco, com um único doméstico, adivinhou um complot dos barqueiros, tirou a espada subitamente, e manteve-os em respeito. Tinha então cerca de vinte e cinco anos. Um pouco mais tarde, e próximo dos seus trinta anos, conta-se que  se bateu contra um rival, na presença de damas, a uma das quais fazia a corte, e que, tendo-o desarmado, lhe fez graça. Era o tempo dos duelos, e Descartes, por falta duma parada, poderia ter muito bem ter morrido numa espécie de querela, como morreu Sévigné. Gostamos de saber  que um sábio se distingue dos outros homens, não por menos loucura, mas por mais razão. De resto,  o leitor encontrará no Discurso do Método, sob o título: Algumas regras da moral tiradas deste método, uma doutrina da acção à qual nada falta. Descartes, perdido numa floresta, e não percebendo  nenhuma razão para seguir um caminho em vez de outro, Descartes, no entanto, escolheu, firmou-se na sua escolha como se o que escolhera fosse o mais razoável, e, por essa firmeza e essa consequência, por essa fidelidade a si mesmo na execução, salvou a escolha  de acaso, e fê-la boa. Esta célebre imagem, se a considerarmos o suficiente, far-nos-á  reencontrar a atitude e até o gesto do homem que melhor soube duvidar quando era preciso, crer quando era preciso, e sempre estar seguro de si. É bom dizer aqui que este homem decidido dormia muito, e ficava de boa vontade deitado mesmo sem dormir. Estes contrastes, estes ócios sem medida, esta espécie de preguiça que cada um emprega como quer, são próprios da vida militar, e fazem escândalo, pelo contrário, nos trabalhos da paz. Descartes, desde o colégio, escapava por favor à regra comum.  Que se tenha lançado de seguida, e por escolha, na existência militar, isso espantaria se esta existência fosse a mais regulada que há; mas não é nada disso; a vida militar regula-se na realidade pelas necessidades exteriores. Pode-se pensar que Descartes sempre suportou sem custo os constrangimentos do acontecimento puro, mas que suportava muito mal os outros. Eis-nos a tentar compreender este solitário, e esta existência voluntariamente exilada. Nos seus jovens anos, ele foi alguma vezes homem de sociedade; em duas ocasiões viveu em Paris como se vivia, apreciando muito a conversação, a música  e todos os divertimentos honestos. Mas  não era nisso muito regular, escondendo-se de repente em algum bairro; os seus amigos encontravam-no por acaso  e reconduziam-no, parece que, sem dificuldade. Estes traços não são dum misantropo. Nas suas viagens, que, ao sair das suas campanhas militares, o conduziram a todas as partes da Alemanha, às Frísias, à Holanda, a Inglaterra, a Itália, vemo-lo caminhar em pequenas jornadas, parar onde lhe agradava, procurar todos os espectáculos da natureza, e também o espectáculo humano, coroação em Francoforte, jubileu em Roma. E mesmo, nos vinte anos que passou a seguir na Holanda,  mudava frequentemente de lugar, sempre bem alojado e bem servido, tendo jardim e cavalos para o passeio, enfim liberdade e lazer, os maiores bens aos seus olhos. Até o mais humano nele foi fora da ordem, como essa Francine, a sua própria filha, que educou até à idade  de cinco anos como o teria feito uma mãe, que perdeu e que chorou. Que homem não admirará, não sem um pouco de medo talvez, esta existência apoiada somente nela mesma, repelindo e atraindo, segundo as suas leis próprias, todos os espíritos em trabalho? Este rei do espírito, que tratava como um igual a princesa Elisabeth, e que a frota sueca esperou em Zuyderzee, até que lhe apeteceu partir para o frio país onde iria morrer, recebeu na sua solidão, pelos seus quarenta e nove anos, um cordoeiro de nome Rembrantsz, bom matemático, que se fez conhecer mais tarde como astrónomo, e com o qual conversou mais de uma vez.

Os que de facto quiserem ler o Discurso do Método como leriam Montaigne, sentirão que Descartes está bem afastado de revolta e da Fronda; mas sentirão também que a ordem política nele é encarada tal como é, e sem nenhuma nuança de religião. Há um pouco de desprezo nesta espécie de obediência. Adivinha-se isso por essa existência militar, que escolhe os seus deveres como exercícios de paciência, e também por essa fuga, que, sob a aparência de procurar um clima conveniente, se detém no país mais livre e menos atravancado de majestade que então havia na Europa. É justo também notar que os teólogos desse país só o deixaram em paz, depois de ardentes querelas,  com a intervenção de altos personagens, entre os quais o embaixador da França; e isso preserva-nos de ordenar as forças conforme as ideias. Um dos pontos da doutrina cartesiana é que o espírito se salva e mesmo governa  pela desordem das forças cósmicas que não pensam. Compreendei aqui esse negro olhar. Todavia é preciso colocar à parte, como ele fazia, a autoridade da sua religião própria, à qual se submetia de livre movimento, e sem nenhuma hipocrisia, tal como tentarei explicar. Resta uma desconfiança, também sem qualquer hipocrisia, a respeito dos círculos, das conversações, e enfim da ordem humana tanto quanto ela tem a pretensão de pensar. Isso pode chocar. Importa mesmo muito que o leitor culto deste tempo sinta o choque, e se encontre como que deslocado um momento duma época em que não se sabe obedecer sem crer, e em que se tem o hábito, em contrapartida, de se pôr em vários para pensar. Esta advertência leva mais longe do que se crê, e encontrar-se-á a sequência na doutrina, por este traço essencial, embora dificilmente apreensível, de que as próprias ideias aí são, duma certa maneira, remetidas para todos os géneros de mecanismos finitos, o que condena de antemão as épocas de vida colectiva, que sempre voltarão, onde o bom senso é contado como um fruto da associação. As ideias são então como máquinas. Ora, é bom notar, como uma visão primeiro fácil e de grande consequência,  que as máquinas estão em todo o lado em Descartes, mas em todo o lado definidas, em todo o lado remetidas para o objecto, em todo o lado limpas de espírito, como de facto elas são. E, a este respeito, é bom que o leitor mantenha no seu pensamento, e em lugar central, o paradoxo assaz conhecido do animal máquina; este severo juízo, que quer corrigir o homem, é profundamente estranho em todo o regime intelectual em que as doutrinas fazem objecto; é preciso então que a controvérsia, e finalmente, a tentativa,  métodos que ousamos dizer animais, sejam os meios normais de reflexão. Segundo este sentimento, que pouco a pouco se esclarecerá, se julgarão também essas discussões surpreendentes, que estão na sequência das Meditações, em que se deixam ver em conjunto uma cortesia voluntária, com um começo de desprezo, logo marcado. Considerai agora esse belo retrato que nos resta, e não vos enganeis quanto à severidade que é o seu carácter. As crianças enganam-se muitas vezes com os pais, porque elas não têm  suficientemente a ideia dos trabalhos aos quais é devida essa vida fácil da infância. Madame de Sevigné escreve à sua filha: “Vosso pai, Descartes.” Esta palavra soa bem aqui, e em todos os seus sentidos. Traduz um movimento de reflexão que é a recordação, e pelo qual a ordem estabelecida presta homenagem ao criador. É da mesma maneira que a ideia pereceria toda sem a memória, pelo menos, do juízo que a fez. É remontar à fonte das ideias. Nós devemos aprender este piedoso retorno, que é pensar, e saber dizer também: “Nosso pai, Descartes.”

Alain
(Tradução de José Ames)


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