quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

REMÉDIOS PARA AS PAIXÕES






“Como fomos crianças antes de sermos homens.”

(Princípios I, 1)




 

Uma vez que se trata aqui da conduta da vida, que é o que interessa mais a um homem, e uma vez que toda a natureza humana se encontra agora reunida como num quadro, o leitor quererá saber que uso deve fazer das suas paixões, e que remédio para os seus excessos Descartes propõe. Encontrar-se-á mais do que um, se se ler atentamente o Tratado; e estas lições de sabedoria são tão fortes, tão naturalmente conduzidas, enfim tão bem no seu lugar, que hesito em trazê-las aqui aos pedaços, cortadas desse belo tecido em que ciência, juízo e grandeza de alma estão em toda a parte entrelaçados. Segundo a minha opinião, esta revista das paixões da alma, este movimento e este passo sobretudo que se imita de Descartes lendo-o, é o principal remédio para as paixões e o mais eficaz. Todavia, se é útil prometer e anunciar, eis aqui, seguindo a ordem das ideias que foram acima expostas, como se poderia resumir esta sabedoria cartesiana, demasiado pouco conhecida.

A força duma paixão, o começo, o paroxismo, o apaziguamento, o retorno dependem em primeiro lugar desses movimentos da vida, sobre os quais não temos qualquer acção directa. Mas não é  pouco se nessas tempestades corporais reconhecermos a natureza material como ela é, quer dizer, sem desígnio nem pensamento algum, sem nada de misterioso nem de fatal, uma parte empurrando a outra. É já afastar de si e ter como que longe da vista esse turbilhão tão próximo, esse turbilhão de sangue e de espíritos animais. É medi-lo, é julgá-lo, e de alguma maneira nos arranjarmos com ele como com o tempo que faz. Temos um longo hábito de viver num mundo que não tem respeito e que é bem mais forte do que nós, no qual, no entanto, encontramos passagem. Feliz aquele que encontra esta mesma natureza cega, indiferente, manuseável mais ou menos como todo o mecanismo, nas suas próprias cóleras, nos seus ódios, nas suas tristezas, e até nos seus desesperos. Tanto mais que, se nós não temos nenhum poder sobre o nosso coração, nem sobre o curso dos espíritos, temos uma acção directa sobre os movimentos dos nossos membros, seja para os regular, seja para os reter. O hábito e o exercício contribuem muito para desenvolver este poder; é claro que, por este meio, nós modificamos indirectamente e mesmo muito os movimentos involuntários da vida, pois que tudo está ligado nesta máquina de músculos e de nervos. Ninguém ignora que uma acção difícil, e que se sabe fazer, é o que há de mais eficaz contra o medo. E, como diz Descartes com força, e não sem o desprezo que convém, uma vez que se consegue realmente adestrar um cão de caça, contra os seus instintos naturais, a não fugir ao disparo e a não se lançar sobre a caça, quem nos impede de empregar a mesma indústria e as mesmas astúcias a adestrar-nos a nós mesmos? É por este método, que se pode dizer atlético, que o homem polido permanece senhor pelos menos dos seus gestos. Mas é preciso saber, e é o que o Tratado nos ensina, que por este meio puramente exterior, se chega também a mudar muito os movimentos interiores, quer dizer a própria paixão. Porém, é no que não se quer crer enquanto não se tiver compreendido bem que as paixões dependem dos movimentos corporais muito mais do que dos pensamentos.

São os nossos pensamentos, com efeito, que nos importunam; o homem apaixonado não diz que o seu coração bate demasiado rápido, mas desenrola diante de si  uma sequência de brilhantes e persuasivas razões. Nesse estado, ele não pode julgar. O menos que pode fazer, se sabe que a paixão o engana, é abster-se de julgar. Pode frequentemente mais, se recordar as máximas familiares, e nas quais muitas vezes reflectiu quando estava livre de paixão. Os estóicos ensinavam esta parte da sabedoria, que não é pouco, mas também que não é tudo. Descartes, homem vivo, homem de primeiro movimento, não conta muito com isso nas crises, e ensina-nos que já é muito não se acreditar em si mesmo, e pelo menos julgar que não se está em estado de julgar. No que  é humano e próximo de nós. Se me é permitido trazer à luz uma ideia que lhe está sempre presente e que há o risco de o estar menos para nós, acrescentarei que a fé em si próprio, e a certeza que se triunfará no fim, desde que se queira, é a mais forte contra essa aparência de fatalidade, que é, poder-se-ia dizer, a constante resposta das paixões à reflexão. Tais são as nossas armas contra os pensamentos brilhantes e loucos que o movimento dos espíritos entretém em nós.

Quero chamar a atenção do leitor para duas ideias ainda, mas que são, essas, muito difíceis, e que Descartes não explicou nada. Que haja paixões favoráveis à vida, como o amor e a alegria, e outras que nos estrangulam pelo contrário por dentro, como o ódio e a tristeza, é um dos pontos mais importantes do Tratado, mas não dos mais difíceis. Estamos advertidos. Mas estaremos armados? Dependerá de nós experimentar o amor ou o ódio? Um acontecimento, uma acção, mostram-se. Conforme  contrariem o nosso próprio ser, ou pelo contrário, o estendam e desenvolvam, nós teremos paixões felizes ou infelizes. Aqui brilha diante dos olhos, ao menos um curto momento, essa observação de Descartes que as mesmas acções, às quais nos conduz o ódio, podem também resultar do amor, pois que afastar de si um mal, é também na realidade atrair a si o bem que lhe é directamente contrário. Spinoza, que comenta aqui utilmente o seu mestre, ensina que vale mais alimentar-se por amor da vida do que por medo da morte, e punir, se se é juiz, pelo amor da ordem do que por ódio e cólera diante do crime. Da mesma maneira, direi eu, vale mais educar a criança pelo amor do que ela tem de bom em si mesma do que por uma tristeza ou uma cólera que se pode sentir ao vê-la má ou tola. O amor da liberdade é também  mais são do que o ódio que se acalenta tão facilmente pelo tirano. Estes exemplos, e tantos outros que se poderiam inventar, não abrem no entanto um caminho fácil. A só considerar os motivos, não vai longe do ódio ao amor; mas a considerar o regime do corpo, segundo a visão admirável de Descartes, vai muito longe do ódio ao amor. Sem dúvida Descartes, e Spinoza depois dele, quer dizer que não é pouco, se se mudam os motivos, e que por este meio o humor triste pelo menos não é apoiado pelos nossos pensamentos. Mas será o bilioso libertado por isso dessa maneira azeda de amar que muitas vezes é a sua? E não se poderia dizer, ao contrário dos nossos filósofos, que a mesma paixão, quer seja dita amor ou ódio por aquele que a experimenta, se traduz frequentemente, segundo os humores e a saúde, por afecções que não respondem em nada às opiniões? Este comentário não belisca a descrição spinozista, em que é pressuposto que todo o curso das paixões depende da necessidade universal. Em Descartes, uma vez que ele jurou governar-se, quereríamos compreender como é que um juízo orientado de outro modo, mas que não muda a acção, disporia de outra maneira o corpo. Sem dúvida é preciso distinguir a acção real, como bater, dessas acções imaginárias, mas já esboçadas no corpo, e que acompanham quase todos os nossos pensamentos. E essas acções são muito diferentes no justiceiro, conforme ele pense em destruir ou em fundar, em prejudicar ou em socorrer. Esta ideia é boa de seguir, todavia parece-me que Descartes nos deixa aqui sem socorro. Mas é talvez, como quis explicar mais acima, porque nós não pensamos a união da alma e do corpo como seria preciso.

Enfim, gostar-se-ia de ler no Tratado que todas as paixões são boas e até as mais violentas, desde que se saiba governá-las bem. Cada um sente de facto que sem as paixões, e mesmo conservadas, não haveria sábio. Descartes mostrou fortemente, e sem duvida foi o primeiro no mundo, que os movimentos do amor e do ódio são úteis à conservação do nosso corpo. Mas não é ainda dizer o bastante. Descartes, tal como o vejo, homem de primeiro movimento, decidido, grande viajante, curioso de todos os espectáculos e sempre em busca de percepções, Descartes devia saber e sentir melhor do que qualquer homem que o espírito não começa nada, e que a primeira partida das nossas virtudes, das nossas resoluções, e mesmo dos nossos pensamentos está nos abanões da natureza, não uma vez, mas sempre. O que se vê pelo menos neste belo estilo, em que a frase retoma, corrige e acaba sempre um movimento de infância. E é por esta arte de descobrir sempre de novo o que ele sabe, que se assegura tão bem de si mesmo. Bom companheiro nisso, e sobretudo no Tratado. Prontamente acima de nós no menor dos seus pensamentos; mas logo ele volta. Donde me parece que só em lê-lo se toma algum ar e algum movimento desta grande alma.


Alain
(Tradução de José Ames)

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